348.
Aprendiz
Despertou sob um céu alaranjado
coado pela transparência das cortinas
a tingir as paredes do quarto
e prenunciar o sol alvissareiro
na gélida manhã de domingo.
Vestígios do sonho a pouco sonhado
deixaram um incerto sentimento
no recém acordado.
Esfregou os olhos inchados
e se espreguiçou languidamente.
Juntou as coragens que tinha
e pôs-se de pé de repente,
um tanto inquietado,
dois tantos sonolento.
Sonhos são mensagens
que, por vezes, encontram
o improvável destinatário.
Olhou em volta,
pelo espaço desarrumado.
Abriu armários
e, mirando-se no espelho,
reconheceu a si mesmo.
Antes de tudo,
prestamos contas ao tempo!
Sem mais nem porquê,
cismou em vasculhar as gavetas.
Obstinou e acabou por arredar
móveis à direita e tralhas à esquerda.
Levantou a borda do tapete.
Espiou pelo cano das botas.
Olhou atrás de mesa e portas.
Remexeu livros da estante.
Folhou jornais de antes de ontem...
Foi para fora e, escorado à parede
ainda úmida de uma noite de julho,
detidamente, perscrutou
do levante ao poente,
no ímpeto de saber o que sente.
Consultou cada um dos sentidos,
que se mantiveram em silêncio,
sem ter de prestar contas por isso.
Por inusitado que fosse, o que buscava
não haveria de ser reconhecido.
Nem assim, se deu por vencido.
Revirando olhos nas órbitas,
sondou profundezas da própria superfície,
como um zaratustra de Nietzsche,
e invocou a memória e farejou os instintos
e adivinhou, sem sucesso,
um possível oculto sentido,
acabando por remexer o abismo
que todos temos por dentro,
até ter desenhado nos lábios um risco,
ao encontrar num canto de si,
a paz que havia perdido.
E sob o sol de inverno,
o nosso aprendiz de sorrisos,
sentiu-se inteiro e aquecido.
Eliseo Martinez
22.07.2021