Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 22 de julho de 2021

348.

Aprendiz


Despertou sob um céu alaranjado
coado pela transparência das cortinas
a tingir as paredes do quarto
e prenunciar o sol alvissareiro
na gélida manhã de domingo.
Vestígios do sonho a pouco sonhado
deixaram um incerto sentimento
no recém acordado.
Esfregou os olhos inchados
e se espreguiçou languidamente.
Juntou as coragens que tinha
e pôs-se de pé de repente,
um tanto inquietado,
dois tantos sonolento.
Sonhos são mensagens
que, por vezes, encontram
o improvável destinatário.
Olhou em volta,
pelo espaço desarrumado.
Abriu armários
e, mirando-se no espelho,
reconheceu a si mesmo.
Antes de tudo,
prestamos contas ao tempo!
Sem mais nem porquê,
cismou em vasculhar as gavetas.
Obstinou e acabou por arredar
móveis à direita e tralhas à esquerda.
Levantou a borda do tapete.
Espiou pelo cano das botas.
Olhou atrás de mesa e portas.
Remexeu livros da estante.
Folhou jornais de antes de ontem...
Foi para fora e, escorado à parede
ainda úmida de uma noite de julho,
detidamente, perscrutou
do levante ao poente,
no ímpeto de saber o que sente.
Consultou cada um dos sentidos,
que se mantiveram em silêncio,
sem ter de prestar contas por isso.
Por inusitado que fosse, o que buscava
não haveria de ser reconhecido.
Nem assim, se deu por vencido.
Revirando olhos nas órbitas,
sondou profundezas da própria superfície,
como um zaratustra de Nietzsche,
e invocou a memória e farejou os instintos
e adivinhou, sem sucesso,
um possível oculto sentido,
acabando por remexer o abismo
que todos temos por dentro,
até ter desenhado nos lábios um risco,
ao encontrar num canto de si,
a paz que havia perdido.
E sob o sol de inverno,
o nosso aprendiz de sorrisos,
sentiu-se inteiro e aquecido.

Eliseo Martinez
22.07.2021

segunda-feira, 12 de julho de 2021

347.

Pêndulo do entendimento

Por capricho dos sentidos,
um pêndulo oscila entre dois princípios.
De boreste, despenca o primeiro,
para tornar-se inteiramente outro,
bombordo acima, do lado oposto.
E, assim, sem mais cuidados,
coexistem na mente do incauto,
vertentes antagônicas
como, de resto, a tralha toda.
Dessa fonte, bebe ele, a cada dia,
saindo alegremente pela vida,
presa fácil das mentiras.
Mas esse arranjo mal tramado,
carente de sentido,
se posto lado a lado,
acaba por aguçar instintos
que suspeitam do aparente equilíbrio.
Por vezes, pelas redondezas,
calha passar a mal falada razão
que, descendo a rua na contramão,
se aprochega, tomando a si a tarefa
de desfazer a conveniente ilusão.
Para pesar os contrários em questão,
a dita risca com giz
o entorno do caso proposto,
que não é outro senão o épico
embate das visões em confronto,
a enevoar as consciências
de uns e outros.
Uma parte, dá vivas à singularidade;
outra, ôlas à unidade.
Dito de forma diversa o já posto:
trata-se da velha pugna,
multiplicidade versus totalidade.
Cada qual é um e segmentado
ou tudo junto e conectado
é o que melhor explica
o mundo e seus estados?
Uns entendem que se trata
de mapear as ilhas do que se sabe
e, mais tarde, talvez, 
compor vastos arquipélagos
em que se agrupam
fatos, ideias e objetos isolados.
Para eles, "uma coisa é uma coisa,
outra coisa é outra coisa"
e, assim, estão sempre prontos
a esquartejar a realidade,
como o carniceiro retalha carnes.
As aparências servem bem a esses,
ferrenhos pragmáticos.
Para outros, os multiléticos,
o primeiro obstáculo
é a força inercial da aparência,
sendo útil dar ao pensamento
algum trabalho e, ao fim e ao cabo,
concluem que tudo é mais
do que se apresenta,
estando as partes ligadas,
como nunca antes
havia sido imaginado.
Em sua síntese redentora,
já diziam aqueles maravilhosos
coletores de azeitonas,
"tudo é um" e, sendo assim,
cada coisa interage
com o cosmo todo.
Sem esquecermos que,
antes deles, pensavam o mesmo
indianos e cataienses,
hoje, conhecidos por chineses.
É aquela borboleta
que batendo asas no Oriente,
move algo no Ocidente,
ou a célula certa que já contém
o conjunto da vida, que dali desperta,
ou o plástico de Bering
que reduz o salmão da Patagônia,
majorando o preço do peixe
alaranjado na Amazônia
ou, ainda, o fato de, indiferentes,
trazermos no próprio corpo
átomos de estrelas diferentes.
Afirmam que a existência
é um único e imenso continente
a ligar tudo, quer por fio de seda
ou elos de corrente
e em contínuo movimento,
desde sempre.
E concluem afirmando que se fosse
fácil entender o que se passa,
pessoas e povos inteiros
não insistiriam nos erros que fazem.
Pelas circunstâncias
que separam elementos diferentes,
eles se mostram desconexos
a maior parte das gentes.
Para tanto,
basta tentar ligar os pontos,
pois os vínculos estão lá,
a espera da agudeza do olhar,
a desvendar o significado
que escapa ao comum do popular.
A esta altura, nada mais falta
a confirmar o credo de que
o que chamamos inteligência
nada mais é do que função
do que consiga ligar o vivente,
a despeito das distâncias
em que se encontrem os diferentes.

Eliseo Martinez
12.07.2021

segunda-feira, 5 de julho de 2021

346.

O clown, a trupe e a claque

Incensando ódios, retrocessos,
ensandece a embezerrada legião,
fiel a seu bizarro capitão.
Em luta insólita, a turba,
anima-se com o esbulho das sobras
e o instinto de perpetuar privilégios
dos que lhes puxam as cordas.
Gente estranha a si mesma,
movida por não tão
estranhos interesses.
Viva as rachadinhas,
milicianos e propinas!
Abaixo à Amazônia,
o povo todo e as vacinas!
É a vanguarda do atraso
armada de velhos preconceitos
e narrativas fantasiosas,
orgulhosa do que ignora,
pisoteando alegremente
conquistas da história.
No fervor dos salmos religiosos
e com truculências da caserna,
arma o pandemônio sobre a Terra.
Afeiçoada às mentiras,
sempre ouvidas
da banda podre dos de cima,
carentes de Ciência e imaginação,
idolatram quem não é mais
que o clown da ocasião.
Enquanto a trupe dos de casa,
com os bolsos estufados,
ludibria a claque dos otários,
de arminhas apontadas.
Viva as rachadinhas,
milicianos e propinas!
Abaixo a Amazônia,
o povo todo e as vacinas!

Eliseo Martinez
05.07.2021