Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 12 de julho de 2021

347.

Pêndulo do entendimento

Por capricho dos sentidos,
um pêndulo oscila entre dois princípios.
De boreste, despenca o primeiro,
para tornar-se inteiramente outro,
bombordo acima, do lado oposto.
E, assim, sem mais cuidados,
coexistem na mente do incauto,
vertentes antagônicas
como, de resto, a tralha toda.
Dessa fonte, bebe ele, a cada dia,
saindo alegremente pela vida,
presa fácil das mentiras.
Mas esse arranjo mal tramado,
carente de sentido,
se posto lado a lado,
acaba por aguçar instintos
que suspeitam do aparente equilíbrio.
Por vezes, pelas redondezas,
calha passar a mal falada razão
que, descendo a rua na contramão,
se aprochega, tomando a si a tarefa
de desfazer a conveniente ilusão.
Para pesar os contrários em questão,
a dita risca com giz
o entorno do caso proposto,
que não é outro senão o épico
embate das visões em confronto,
a enevoar as consciências
de uns e outros.
Uma parte, dá vivas à singularidade;
outra, ôlas à unidade.
Dito de forma diversa o já posto:
trata-se da velha pugna,
multiplicidade versus totalidade.
Cada qual é um e segmentado
ou tudo junto e conectado
é o que melhor explica
o mundo e seus estados?
Uns entendem que se trata
de mapear as ilhas do que se sabe
e, mais tarde, talvez, 
compor vastos arquipélagos
em que se agrupam
fatos, ideias e objetos isolados.
Para eles, "uma coisa é uma coisa,
outra coisa é outra coisa"
e, assim, estão sempre prontos
a esquartejar a realidade,
como o carniceiro retalha carnes.
As aparências servem bem a esses,
ferrenhos pragmáticos.
Para outros, os multiléticos,
o primeiro obstáculo
é a força inercial da aparência,
sendo útil dar ao pensamento
algum trabalho e, ao fim e ao cabo,
concluem que tudo é mais
do que se apresenta,
estando as partes ligadas,
como nunca antes
havia sido imaginado.
Em sua síntese redentora,
já diziam aqueles maravilhosos
coletores de azeitonas,
"tudo é um" e, sendo assim,
cada coisa interage
com o cosmo todo.
Sem esquecermos que,
antes deles, pensavam o mesmo
indianos e cataienses,
hoje, conhecidos por chineses.
É aquela borboleta
que batendo asas no Oriente,
move algo no Ocidente,
ou a célula certa que já contém
o conjunto da vida, que dali desperta,
ou o plástico de Bering
que reduz o salmão da Patagônia,
majorando o preço do peixe
alaranjado na Amazônia
ou, ainda, o fato de, indiferentes,
trazermos no próprio corpo
átomos de estrelas diferentes.
Afirmam que a existência
é um único e imenso continente
a ligar tudo, quer por fio de seda
ou elos de corrente
e em contínuo movimento,
desde sempre.
E concluem afirmando que se fosse
fácil entender o que se passa,
pessoas e povos inteiros
não insistiriam nos erros que fazem.
Pelas circunstâncias
que separam elementos diferentes,
eles se mostram desconexos
a maior parte das gentes.
Para tanto,
basta tentar ligar os pontos,
pois os vínculos estão lá,
a espera da agudeza do olhar,
a desvendar o significado
que escapa ao comum do popular.
A esta altura, nada mais falta
a confirmar o credo de que
o que chamamos inteligência
nada mais é do que função
do que consiga ligar o vivente,
a despeito das distâncias
em que se encontrem os diferentes.

Eliseo Martinez
12.07.2021

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