Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

350.

Dá memórias à pequena!


Sai um pouco da cidade,
pega a estrada e te evade.
Vem andar descalça na beira da praia.
Vem e trás junto a pequena.
Imagina os olhinhos dela
na primeira vez que ver o mar,
se espantando com o horizonte
sem parede, rua ou prédio,
que já lhe ensinaram o perto, é certo,
e começar a entender onde fica o longe,
para que algum dia chegue lá.
E, assim, regar nela o grão do filosofar.
O que irá pensar do mistério das marés
e do jogo interminável das ondas,
que não param de quebrar?
Elas lhe ensinarão a persistência,
fazendo com que o que deseje aconteça.
Imagina só!
A menina correndo pela areia,
sem motivo de cuidado
ou mão que a contenha,
a tomar gosto pela liberdade
e seguir a vida inteira ao seu encalço.
Imagina quando ver as garças
de meinhas pretas, bicos perfilados
e penachos empertigados,
todas à linha d´água,
viradas para o mesmo lado
e ela, mão nos olhos, escondidinha,
vindo de mansinho,
revoando a passarada,
com o riso dos inocentes,
neste mágico momento.
As garças ensinarão a ela
a paciência e o comedimento,
para que saiba aplacar
os caprichos do tempo.
E quando se deparar
com o biguá desengonçado,
que mais parece pato mal desenhado,
mas pescador difícil de ser igualado.
Caberá ao biguá lhe provar
que as aparências são acidentes,
nada dizem da essência da gente.
Nossa!
E quando ver o siri andando de lado,
todo atrapalhado?
Será que a mamãe dele
esqueceu de explicar
como se anda olhando
prá onde se quer chegar?
Do siri ela aprenderá
que não tem só um, mas muitos
jeitos de se caminhar.
Descobrirá que todos podem ser o certo,
e diferenças tem de se respeitar.
O que dirá da tatuíra
que, brincando de esconder,
cava a areia úmida
da manhã ao entardecer?
A tatuíra lhe ensinará como se proteger
e que o trabalho é a chave prá sobreviver.
Já pensou nos golfinhos,
entrando pela barra, rio acima,
atrás dos cardumes de sardinhas?
Do golfinho aprenderá
que a graça e a beleza
podem estar em todo o lugar.
Aos poucos irá percebendo
que basta se estar atento
e tudo tem algo a nos ensinar.
Depois daqui, o mundo vai ser outro,
bem maior do que qualquer tela de TV.
Maior, ainda, do que o parquinho
ou do quarto dos brinquedos,
onde estaciona seus carrinhos
e põe para dormir os ursinhos.
Se a felicidade tem cara, ela estará lá,
no rosto de uma flor de mel,
que gente grande teima
em chamar de Izabel.
Levará com ela lembranças vida à fora,
fazendo mais leve sua história.
Dá memórias a tua filha, filha minha,
pois tu também as teve
em teus tempos de pequenina.
Memórias das coisas boas
são sementes de afeto,
quem sabe as guarde e cresçam nela,
prá ser mais feliz, sem tanto medo,
sabendo que o amor
é coisa a se manter perto.

Eliseo Martinez
24.08.2021

2 comentários:

  1. Eliseo, fiquei sensibilizada ao ler"Dá Memórias à Pequena". Falo do tema eleito, nao da forma(nesta nao me atrevo).Flagrante a identidade do escritor com o homem comum que escreve, pelo pouco que conheço. Denuncias todo teu sentimento à relação de parentalidade. A questão posta vai muito além de um convite a experiências que extrapolem a vida urbana da pequena, quiçá um apelo. Também, revelas, sem medo, nao só as memórias de infância da tua filha (presas inevitavelmente no teu pensar/história),mas, principalmente, faz uma declaracao de encanto e amor à pequena Izabel. Aqui com meus pensamentos, retomo a observacao, o dito de que escrevemos "para comunicar aos outros a nossa identidadde íntima com eles" (FPessoa). A reação deve vir, nao em migalhas, mas plena em seus afetos.

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  2. Belo comentário, Fátima! Para mim, escrever é exatamente isso: achar lugar para o que faltou espaço, sempre um ato de afeto, quer de dor quer de amor.

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