Estão presentes nos movimentos de esquerda (black blocs, antifas...) e direita (skinheads, proud boys...), ora atuando nas sombras, ora à luz do dia, insuflando descontentes dentro de suas fileiras.
Operando com sinais trocados, esses são os provocadores, experimentados na tática de fazer fermentar a inércia das massas.
Combatentes das redes sociais ou ativistas no movimento vivo das ruas.
O jogo jogado tem sido sujo e desequilibrado.
A mentira é a bala na arma.
Isso não significa que os que querem uma sociedade mais igualitária devam continuar a se negar entender as gradações
da violência na luta política, usada em excesso pelas forças conservadoras.
A realidade escancarada não é coisa das mais fáceis de ser encarada.
A indignação e o sentimento de impotência apertam o laço em torno de nossos pescoços.
Para as sociedades maduras, com instituições consolidadas,
em vasta medida, as saídas são apontadas pela política.
No país dos brasileiros, para o bem e para o mal condenado a
ser jovem para sempre, o que seria a saída mais parece um emaranhado de dutos de esgoto, convergindo para a mesma cloaca podre.
Por aqui, a dita grande política está associada ao que de pior
foi gestado com o voto do povo, precariamente instruído e,
por isso mesmo, enganado sem muito esforço.
Abrigando todo tipo de bandido, as instâncias do Parlamento
são marcadas pela figura anacrônica do profissional da política; os quadros do Judiciário, recrutado entre as elites, historicamente, comprados com altos salários e o Executivo, nossa!, é a própria fossa mal cheirosa.
Aqui, as classes dominantes são, desde sempre, predatórias, sem projeto de nação e afeitas ao ganho fácil; as médias, colonizadas por interesses estranhos ao conjunto mais amplo da sociedade, desprezando os mais abaixo; os trabalhadores, mantidos à margem das decisões, garroteados pela precariedade das condições em que usufruem trabalho, saúde e educação, abandonados pelo Estado.
O sistema é exclusivo, racista e homofóbico; grande parte da imprensa reza no ideário de direita, guiada pelos mais mesquinhos interesses das classes abastadas.
A hipocrisia paira absoluta sobre a trupe toda, tanto das elites entreguistas como, também, é amplamente reproduzida pelas estratégias de sobrevivência das camadas desfavorecidas.
A fome alastra-se no rentável paraíso do agronegócio, a Amazônia, dia a dia, encolhe sua fronteira verde pela ganância dos fazendeiros e a ação de grileiros mancomunados com as autoridades coniventes e os povos originários seguem sendo dizimados.
Se não bastasse, presenciamos a crise do modelo representativo, a falência dos sindicatos e o ocaso dos partidos.
O que pode qualquer de nós, simples mortais, frente a este Leviatã empestado e seus cidadãos rebaixados senão fustigar os
que se mantém anestesiados, fazer com que melhor enxerguem através dos véus postos em sua frente?
A luta política dos que almejam virar a mesa, se parte das mudanças estruturais econômicas, dificilmente surtirá efeito sem fortalecer seu braço cultural, aquele que enseja extensa mudança comportamental.
Novos tempos, novas táticas para alcançar antigo objetivos estratégicos.
Estimular o exercício da afronta ao poder, disseminar a perspectiva de desconfiança sobre as instituições tomadas pelo patrimonialismo, desenraizar a lógica dos dominantes e não cessar de denunciar os pressupostos inconfessáveis de sua ética, assim como sua perversa moral, posta em prática, são tarefas que cabem aos que almejam um país melhor e mais justo para viver.
Nestes tempos em que o real se confunde com a ficção, que às fileiras humanistas munam-se dos meios necessários para que cada um seja o super-herói da ocasião, um PROVOCADOR, minando cada poro do injusto sistema opressor.
Por todo o mundo, frustram-se as esperanças em deixar nas mãos dos partidos políticos o monopólio da ação organizada.
A perspectiva anárquica de consolidar uma nova resposta por parte de todo aquele que se veja aviltado pela omissão ou ação indevida do Estado é o que nos oferece a conjuntura, nestes tempos, até aqui, desesperançados.
Todo o mal prosperar mais facilmente ao abrigo das sombras.
Apenas o lume da vela que cada um leva entre as mãos pode jogar luz no menor dos cantos tomados pela escuridão.
Coletivo dos Um
Eliseo Martinez
26.06.2022