Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 27 de junho de 2022

407.

Provocador por ofício

Estão presentes nos movimentos de esquerda (black blocs, antifas...) e direita (skinheads, proud boys...), ora atuando nas sombras, ora à luz do dia, insuflando descontentes dentro de suas fileiras.
Operando com sinais trocados, esses são os provocadores, experimentados na tática de fazer fermentar a inércia das massas.
Combatentes das redes sociais ou ativistas no movimento vivo das ruas.
O jogo jogado tem sido sujo e desequilibrado.
A mentira é a bala na arma.
Isso não significa que os que querem uma sociedade mais igualitária devam continuar a se negar entender as gradações
da violência na luta política, usada em excesso pelas forças conservadoras.
A realidade escancarada não é coisa das mais fáceis de ser encarada.
A indignação e o sentimento de impotência apertam o laço em torno de nossos pescoços.
Para as sociedades maduras, com instituições consolidadas,
em vasta medida, as saídas são apontadas pela política.
No país dos brasileiros, para o bem e para o mal condenado a
ser jovem para sempre, o que seria a saída mais parece um emaranhado de dutos de esgoto, convergindo para a mesma cloaca podre.
Por aqui, a dita grande política está associada ao que de pior
foi gestado com o voto do povo, precariamente instruído e,
por isso mesmo, enganado sem muito esforço.
Abrigando todo tipo de bandido, as instâncias do Parlamento
são marcadas pela figura anacrônica do profissional da política; os quadros do Judiciário, recrutado entre as elites, historicamente, comprados com altos salários e o Executivo, nossa!, é a própria fossa mal cheirosa.
Aqui, as classes dominantes são, desde sempre, predatórias, sem projeto de nação e afeitas ao ganho fácil; as médias, colonizadas por interesses estranhos ao conjunto mais amplo da sociedade, desprezando os mais abaixo; os trabalhadores, mantidos à margem das decisões, garroteados pela precariedade das condições em que usufruem trabalho, saúde e educação, abandonados pelo Estado.
O sistema é exclusivo, racista e homofóbico; grande parte da imprensa reza no ideário de direita, guiada pelos mais mesquinhos interesses das classes abastadas.
A hipocrisia paira absoluta sobre a trupe toda, tanto das elites entreguistas como, também, é amplamente reproduzida pelas  estratégias de sobrevivência das camadas desfavorecidas.
A fome alastra-se no rentável paraíso do agronegócio, a Amazônia, dia a dia, encolhe sua fronteira verde pela ganância dos fazendeiros e a ação de grileiros mancomunados com as autoridades coniventes e os povos originários seguem sendo dizimados.
Se não bastasse, presenciamos a crise do modelo representativo, a falência dos sindicatos e o ocaso dos partidos.
O que pode qualquer de nós, simples mortais, frente a este Leviatã empestado e seus cidadãos rebaixados senão fustigar os
que se mantém anestesiados, fazer com que melhor enxerguem através dos véus postos em sua frente?
A luta política dos que almejam virar a mesa, se parte das mudanças estruturais econômicas, dificilmente surtirá efeito sem fortalecer seu braço cultural, aquele que enseja extensa mudança comportamental.
Novos tempos, novas táticas para alcançar antigo objetivos estratégicos.
Estimular o exercício da afronta ao poder, disseminar a perspectiva de desconfiança sobre as instituições tomadas pelo patrimonialismo, desenraizar a lógica dos dominantes e não cessar de denunciar os pressupostos inconfessáveis de sua ética, assim como sua perversa moral, posta em prática, são tarefas que cabem aos que almejam um país melhor e mais justo para viver.
Nestes tempos em que o real se confunde com a ficção, que às fileiras humanistas munam-se dos meios necessários para que cada um seja o super-herói da ocasião, um PROVOCADOR, minando cada poro do injusto sistema opressor.
Por todo o mundo, frustram-se as esperanças em deixar nas mãos dos partidos políticos o monopólio da ação organizada.
A perspectiva anárquica de consolidar uma nova resposta por parte de todo aquele que se veja aviltado pela omissão ou ação indevida do Estado é o que nos oferece a conjuntura, nestes tempos, até aqui, desesperançados.
Todo o mal prosperar mais facilmente ao abrigo das sombras.
Apenas o lume da vela que cada um leva entre as mãos pode jogar luz no menor dos cantos tomados pela escuridão.

                                             Coletivo dos Um


Eliseo Martinez
26.06.2022

terça-feira, 21 de junho de 2022

406.

Onde nasce o olhar
e a origem da discórdia

Por trás do rosto, lá onde nada ainda é,
mas promessa de vir a ser, nasce o olhar
sob efeitos de sensações primordiais,
fragmentos de pensamento,
lampejos da intuição, mil sóis da vontade,
brumas do medo e incêndio dos desejos.
Do âmago deste caos interior, o insondável
que todos somos, vem à luz a imagem.
Híbrida das químicas corpo a dentro
com o fenomênico mundo fora,
a imagem vai definindo o olhar,
em busca da própria forma,
carente da precisão que ainda lhe plantará
as ilusórias certezas que a tornarão insólita.
Logo, os planos da visão serão definidos pelo
tempo e espaço, sob homens que os enquadram,
atualizados no contexto dos próprios marcos.
Tudo o mais observado, sem método adequado
e, por princípio, desregrado, funda o mistério
da visão única do par de olhos
cravados nas cavas de cada cara,
tendendo a ver o diverso em tudo que é manifesto.
Ajustes de foco seguem as escolhas já postas,
candidamente tidas como inteiramente nossas,
na crença do que podem cogitar
as rezes no seio da tropa.
Por sua vez, a existência, obstinada,
oscila entre o que agrega e o que aparta;
a razão apostando no que há de comum,
enquanto o raro brilha intenso
no intrínseco de cada um.
Onde mais avança a ordem civilizatória,
mais sólidos são os consensos,
estes acordos ampliados que ocasionalmente
se formam entre os que são levados a olhar
para o mesmo lado, calibrando a fé no assemelhado;
onde estagna, rarefeita, mais a barbárie se espalha.
E, assim, seguimos todos, meio tontos, meio tortos,
quase engraçados, tateando por caminhos já traçados,
que valem pelo fluxo do que vamos nos tornando,
raramente chegando ao que havia sido calculado.
Lá vai João, tendo ante os olhos o mesmo que eu,
mas o que ele vê é bem diverso do que vê o Eliseo.
Ao lado, anda Donana que, da mesma forma,
vê coisa outra do que vê João, do que vejo eu
e do que veem todos os outros
com olhos postos no mesmo que os teus.
Que obra há de ser mais nossa
do que esta anárquica discórdia,
que emerge de olhares tão opostos?

Eliseo Martinez
13.06.2022

quinta-feira, 9 de junho de 2022

405.

Pelo que bate um coração

O coração que bate ferozmente
é um coração que sente.
Pode ser por falta de sorte
que bata forte,
esse coração selvagem.
Pode não ter tido escolha; torto,
por ter vindo ao mundo
mais doce que os outros,
acabando com olhos
só pro verso das coisas.
O coração que bate ferozmente
pode ser o de quem aguarda
na estação deserta
o trem que já ninguém espera,
por ter partido em hora incerta.
Talvez lute a luta já perdida
de domar a própria fúria
ou, resoluto suicida,
entregue-se à angústia.
O coração que bate ferozmente
talvez bata por todos os outros,
em que os próprios corações
apenas batem por si mesmos.
Talvez seja por ti que ele bata...
De tanto pulso em descompasso,
mais certo é que um coração
bata diferente
pelo que leva de mágoas
dentro do peito.

Eliseo Martinez
09.06.2022

terça-feira, 7 de junho de 2022

404.

Curiosa raça

Sequer sabe-se se veio de Nazaré ou Belém.
A ele atribuem feitos que não ocorreram.
Está nas preces de quase todos.
Nele, confortam-se dos males do mundo,
sem que dê solução às chagas humanas.
Nele depositam esperanças profundas,
sem nada que lhes mova o futuro.
Alguns duvidam de sua própria existência.
No entanto, pastoreia vastos rebanhos.
E, assim como ele, outros vieram,
no comando de bandos menores,
fazendo nascer respostas em cada cordeiro,
sem que elas respondam a nada.
Fiéis seguidores de uma forma de fé
que dissolve argumentos
sem considerá-los sequer.
Curiosa raça dos homens!

Eliseo Martinez
07.06.2022

segunda-feira, 6 de junho de 2022

403.

Coisinhas sobre o tempo

No plano das coordenadas,
o tempo amasiou-se a altiva ordenada,
sempre lembrada,
e o espaço quedou-se triste,
rasteiro com a abscissa,
quase esquecida.
Do tempo fala-se tudo, gera assunto,
diz respeito a vida de todos;
o espaço, cada vez mais privado,
tende a ser recluso.
O tempo vive na boca do povo,
sempre alvo de algum falatório novo.
Quando pouco se tem a dizer,
recorre-se aos frios ou calores,
torcendo pra não chover.
Basta escutar o que dizem
deste que não se vê,
sequer se sente, mas de repente,
nos dá um bote no cangote,
feito imprevisível serpente:
O tempo que era analógico e lógico;
passou a ser virtual e distópico.
Ele já foi o "tempo que voa";
hoje, simplesmente, some à toa.
O tempo fazia um velho aos quarenta;
recentemente, adiou a velhice
para setenta, oitenta...
Antes, o "tempo passa"; 
agora, ele nos "lacra".
Para os que trabalham
pensando em se jubilar,
o tempo já foi reconfortante imagem;
por hora, é cada vez mais miragem.
"Tempo" era "dinheiro";
com tanta crise, passou a ser
juro alto e parco dividendo.
A antiga "velocidade do tempo";
hoje, turbinada, é conhecida
por "tempo acelerado".
No passado cantaram
que "o tempo não para";
no presente, isso foi dar
no tempo da ansiedade,
da depressão, da insanidade...
Antes, os casais "davam um tempo",
hoje, é a vez do sobressalente
assumir a vaga no leito.
O mesmo tempo que trazia experiência,
o que era bom;
agora, traz obsolescência,
que não é nada bom.
O tempo que já andou de carroça;
anda, agora, na ogiva de um míssil russo
apontado para as portas da Europa.
Os tempos já foram "bicudos";
hoje, são opacos como espelhos de aço.
E os filhos do tempo, então?!
Seus três rebentos não se entendem;
passado, presente e futuro
recusam-se a andar juntos.
Nesta família de desgarrados,
vai cada um pro seu lado.
Se, antes, a falta de pressa
fazia o tempo regrado;
nos dias de hoje, descompensados,
os yankes, jet lag e delay,
são seus filhos bastardos.
Tá na hora, acabou teu tempo!
Volta semana que vem.

Eliseo Martinez
06.06.2022

sábado, 4 de junho de 2022

402.

O fim de um bom livro

Eles nos trazem filtrado
o que foi intensamente vivido
na mente de um outro.
O que não é nada pouco,
já que comum é a distância,
mesmo dos que nos acompanham  
desde os tempos de infância.
Sempre sucede comigo
o que, agora, se verifica.
À medida em que um bom livro
se abeira do fim, algo próximo
a nostalgia se apossa de mim.
Uma nostalgia antecipada!
Mencioná-la, deste modo,
nada têm de exagerado.
O final desses livros
antecipam saudades,
ainda que andem debaixo do braço.
Eles me olhando,
eu olhando para eles,
no andor de um capítulo a outro,
protelando o derradeiro momento
de tão prazerosos encontros.
Antes de percorrer o caminho
do prefácio e prólogo ao epílogo,
há de se decodificar os conceitos,
nuances, linguagem, cenários.
De posse das senhas e chaves,
adentramos a mente do autor,
nos deixando envolver
pelo enredo habilmente proposto.
Ser absorvido pela história
ou, alertas, armados da crítica,
ante as teses contidas na escrita.
E, chegando a seu termo,
experimentar do vazio
deixado por tantas dádivas
que o escritor foi capaz
de espalhar pelas páginas.
Mais tarde,
padecemos da imensa perda,
agora, dos pequenos detalhes,
retidos nas dobras da memória,
sumidos pela boca dentada
do esquecimento, que as devora,
a seu tempo.
Se o livro for bem escolhido,
para o voraz leitor será sempre
um pequeno caso de amor,
com breve nota de dissabor
ao pesar na balança
o que fica guardado
e o que se foi,
sabe-se lá para que lado.

Eliseo Martinez
04.06.2022

sexta-feira, 3 de junho de 2022

401.

Mais uma vez, a Arte

Quando tudo sobre a Arte
tiver sido dito,
não haverá mais Arte,
mas um monte de fósseis de lixo.
Assim, para não perder a mão,
que sempre haja pernas
para sair ao encalço
de sua mutante definição.
Antes de tudo,
a Arte não é um talento,
tampouco um dom,
vindo de um recôndito
reino de encantamento.
Ela é uma prática
sem finalidade ou função,
a não ser a da provocação.
É exercício de imaginação
cristalizado no ato da criação.
Ela nasce irremediavelmente
estranha a consensos,
insubmissa ao império estético
do feio ou do belo.
Arte é a manifestação
daquele que se torna sujeito
ao dar forma ao pensamento
no objeto por ele criado,
tão palpável como a extraída
de um bloco de mármore,
quanto intangível como o som
da palavra articulada.
É um sopro de vida,
já que existência criada,
não natural ou por mão
de homem replicada,
uma vez que obra de arte
é somente uma vez.
É a transcendência
do que simplesmente está aí,
equiparada ao que os mitos
atribuíam à essência dos deuses.
Mesmo que nasça de um tempo,
a Arte tangencia nossa
curta eternidade,
já que é transversal
aos tempos todos da humanidade.
É a provocação mais sublime
de um rebelde indivíduo,
mas também, das entranhas,
jamais totalmente dissecadas
do coletivo de que ele é cria.

Eliseo Martinez
03.06.2022

quinta-feira, 2 de junho de 2022

400.

Transparência

Nestes tempos opacos,
em que o desamor
se alastra por todo lado,
nada mais urgente
que a transparência
que se possa,
para não deixar sucumbir
o que faz sentido
e, ainda, importa.

Eliseo Martinez
02.06.2022

quarta-feira, 1 de junho de 2022

399.

Com olhos voltados para o alto

A memória é a visão das origens
de nosso pequeno universo.
Ela nos traz notícias
com suas lentes de afeto
voltadas para o espaço profundo
que, pouco a pouco, pelos éones,
vai dando forma e conteúdo
ao que chamamos de mundo.
Quando guri,
olhos postos no céu noturno,
feito um copérnico, um galileu
ou um tycho brahe matuto,
caçava astros velozes,
do escuro do pátio da vó Rosa.
Isso, quando os ares eram, ainda,
quase translúcidos
e a Cidade não nos cegava
com o fulgor sujo de suas luzes.
Com olhar atento, passava horas
rastreando o firmamento
à espera das estrelas ligeiras,
diferentes das outras que,
embora belas, mais apaziguadas,
cintilavam costuradas
no veludo tinto de negro.
Não lembro de uma só noite
que me recolhesse
sem alcançar meu intento.
Uma ou duas delas
sempre estavam por lá,
em suas órbitas incandescentes,
a riscar o espaço, preenchendo
meu peito de contentamento.
Era tempo de se ver a Via Láctea,
majestosa, sobre as cabeças,
feito rastro cintilante,
cravejado de diamantes.
Talvez, o que o olho humano
tenha de mais belo para ver
e, vendo, se puder, agradecer.
Nessa espera por estrelas cadentes,
renovavam-se esperanças,
fazendo voar mais leve,
a imaginação daquela criança.
Tempo bom de ser guri.
Os mistérios estavam bem ali,
apresentados, faltava desvendá-los.
Já na adolescência,
o mesmo céu, velho conhecido,
passou ao papel de vital companhia,
quando, sem carona, dormia
à beira da estrada, imune à solidão
ou pensamento atravessado,
mesmo sem alma viva ao lado,
imensamente grato
pelos tesouros achados
em meio a escuridão dessas matas.

Eliseo Martinez
31.05.2022