Com olhos voltados para o alto
A memória é a visão das origens
de nosso pequeno universo.
Ela nos traz notícias
com suas lentes de afeto
voltadas para o espaço profundo
que, pouco a pouco, pelos éones,
vai dando forma e conteúdo
ao que chamamos de mundo.
Quando guri,
olhos postos no céu noturno,
feito um copérnico, um galileu
ou um tycho brahe matuto,
caçava astros velozes,
do escuro do pátio da vó Rosa.
Isso, quando os ares eram, ainda,
quase translúcidos
e a Cidade não nos cegava
com o fulgor sujo de suas luzes.
Com olhar atento, passava horas
rastreando o firmamento
à espera das estrelas ligeiras,
diferentes das outras que,
embora belas, mais apaziguadas,
cintilavam costuradas
no veludo tinto de negro.
Não lembro de uma só noite
que me recolhesse
sem alcançar meu intento.
Uma ou duas delas
sempre estavam por lá,
em suas órbitas incandescentes,
a riscar o espaço, preenchendo
meu peito de contentamento.
Era tempo de se ver a Via Láctea,
majestosa, sobre as cabeças,
feito rastro cintilante,
cravejado de diamantes.
Talvez, o que o olho humano
tenha de mais belo para ver
e, vendo, se puder, agradecer.
Nessa espera por estrelas cadentes,
renovavam-se esperanças,
fazendo voar mais leve,
a imaginação daquela criança.
Tempo bom de ser guri.
Os mistérios estavam bem ali,
apresentados, faltava desvendá-los.
Já na adolescência,
o mesmo céu, velho conhecido,
passou ao papel de vital companhia,
quando, sem carona, dormia
à beira da estrada, imune à solidão
ou pensamento atravessado,
mesmo sem alma viva ao lado,
imensamente grato
pelos tesouros achados
em meio a escuridão dessas matas.
Eliseo Martinez
31.05.2022
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