409.
Alvorecer
Pouco e tanto sabia eu de ti.
De fato, nunca te vira.
Sabia-te, talvez, de ouvir falar,
das matinês do Cine Gioconda
ou das páginas de revista
da banca do Epaminondas.
E, assim, guardo-te na lembrança
desde muito antes de eu partir
para as andanças que fiz.
Sabia de teu jeito brejeiro,
da inocente malemolência
e dos lábios ainda não beijados
por boca que não fosse
a colada ao espelho.
Por alguma insólita razão,
te sabia a despertar, menina,
os insondáveis mistérios
de inquietudes femininas.
Imaginava a fina teia
tecida por ternos carcereiros,
confinando teu casto corpo
em róseo cativeiro.
Sabia que, assim, seguias,
protegida da espuma dos dias,
do alegre alvoroço das ruas,
das tardes ensolaradas de inverno,
dos tigres submersos do Guaíba,
guardada dos olhares da matilha...
Por certo, mantinham-te
no alto de um minarete,
espetado de para-raios e antenas,
acima das torres de concreto
de um secreto bairro da cidade,
onde passavas teus dias
sonhando os sonhos da idade,
sendo livre... para entristecer
tua solidão de cisne.
Ah! Mil vezes quis salvar-te!
Se tivesses tranças,
longas tranças...
Pouco e tanto podem
as fantasias de um menino.
Inventaram, elas, a candura
de teus desejos de menina.
Podiam fluir minha inocência
por entre as frestas do que eu via.
Se a sedução é coisa que se situe
entre a sugestão e o que se cria,
era assim que te imaginava
antes de adormecer no alvorecer
de minha quase-adolescência,
entre lençóis que me denunciavam
na manhã do outro dia.
Ao cair a noite sobre o quarto,
lá estavas tu me esperando
ao pé de um arco feito de cores,
na redoma de uma infância,
ainda, imune as dores.
Com a cabeça no travesseiro,
vivi histórias que foram
se amontoando na memória.
De quando em quando,
ainda agora, com algum espanto,
me vejo a arrumá-las como posso,
sabendo que bem ali, nas vigílias
libertinas de um menino,
foi que me inaugurei na vida.
Eliseo Martinez
05.07.2022