Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 6 de julho de 2022

410.

Egos desmesurados

Pobre daquele que faz
da escrita seu ofício.
Não raro, é tomado
por ventríloquo de si mesmo.
A cada verso que se rastreia,
escarafuncha, limpa
e sutura seus furúnculos,
não faltará voz embargada,
grata por ser lembrada,
sentindo-se lambida
nas próprias feridas,
com a precisão codificada,
a ela, graciosamente dirigida.
Por vezes, mesmo,
o servo da palavra escrita,
é cobrado pela acidez
de uma linha ou outra
ou omitir algo tido,
por imprescindível.
Dá licença!
Parece que por mais que grite,
uive e gema quem escreve,
escafandro do fundo de si mesmo,
tão poucos escutem e tantos outros
se mantenham surdos.
Uma breve nota de roda pé
poderia, ainda, esclarecer que
antes de se escrever para alguém
escreve-se para si mesmo.
Que esses egos desmesurados,
não se sintam, por isso, desafagados.

Eliseo Martinez
06.07.2022

terça-feira, 5 de julho de 2022

409.

Alvorecer

Pouco e tanto sabia eu de ti.
De fato, nunca te vira.
Sabia-te, talvez, de ouvir falar,
das matinês do Cine Gioconda
ou das páginas de revista
da banca do Epaminondas.
E, assim, guardo-te na lembrança
desde muito antes de eu partir
para as andanças que fiz.
Sabia de teu jeito brejeiro,
da inocente malemolência
e dos lábios ainda não beijados
por boca que não fosse
a colada ao espelho.
Por alguma insólita razão,
te sabia a despertar, menina,
os insondáveis mistérios
de inquietudes femininas.
Imaginava a fina teia
tecida por ternos carcereiros,
confinando teu casto corpo
em róseo cativeiro.
Sabia que, assim, seguias,
protegida da espuma dos dias,
do alegre alvoroço das ruas,
das tardes ensolaradas de inverno,
dos tigres submersos do Guaíba,
guardada dos olhares da matilha...
Por certo, mantinham-te
no alto de um minarete,
espetado de para-raios e antenas,
acima das torres de concreto
de um secreto bairro da cidade,
onde passavas teus dias
sonhando os sonhos da idade,
sendo livre... para entristecer
tua solidão de cisne.
Ah! Mil vezes quis salvar-te!
Se tivesses tranças,
longas tranças...
Pouco e tanto podem
as fantasias de um menino.
Inventaram, elas, a candura
de teus desejos de menina.
Podiam fluir minha inocência
por entre as frestas do que eu via.
Se a sedução é coisa que se situe
entre a sugestão e o que se cria,
era assim que te imaginava
antes de adormecer no alvorecer
de minha quase-adolescência,
entre lençóis que me denunciavam
na manhã do outro dia.
Ao cair a noite sobre o quarto,
lá estavas tu me esperando
ao pé de um arco feito de cores,
na redoma de uma infância,
ainda, imune as dores.
Com a cabeça no travesseiro,
vivi histórias que foram
se amontoando na memória.
De quando em quando,
ainda agora, com algum espanto,
me vejo a arrumá-las como posso,
sabendo que bem ali, nas vigílias
libertinas de um menino,
foi que me inaugurei na vida.

Eliseo Martinez
05.07.2022

segunda-feira, 4 de julho de 2022

408.

Impermanência

Corri mundo atrás de mim.
Cada vez que me encontrava,
perdia-me outra vez.
Dos caminhos que me embretei,
nada do que sou achei,
pois nada há para se encontrar
que não se encontre mais além.
Nada é, tampouco está.
Tudo é devir sem fim,
girando no vácuo do espaço
sem rumo, sem parar.
De resto,
de tanto me procurar,
cresceu em mim
o desejo de me esquecer,
sem plano aprovado
ou rastro pra ser achado.
Mas, as pistas que dá o tempo
é o que nos faz suspeitar
da única certeza
em que podemos confiar.
Certa é a parte que nos cabe
de um certo caos interior,
contando com a vastidão
do imponderável ao redor.
Com sorte, acabamos
por dar alguma ordem
a este reino de desordem,
inventando quem se é
e seguimos, vida a fora,
destinados a tentar
nos convencer
do que foi catado
e, ao acaso, misturado
no absurdo de se ser.

Eliseo Martinez
04.07.2022