Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

414.

Vislumbre

Bem aqui, onde estou,
neste dia claro de céu azul,
tive notícias de meu próprio fim,
num súbito deslumbre
do que será de mim.
Me despedirei em Torres,
à frente do oceano,
entre caipirinhas e casquinhas de siri,
girando olhos nas órbitas
feito doido colibri.
Meu corpo, então, já usado,
será corpo morto
mas, também, corpo grato.
Não, não quero teu consolo.
Apenas te adianto, sem entusiasmo
que, em que pese algum incômodo,
ali, mansamente, darei adeus
a tudo que povoa meu entorno.
Se perguntarem se tenho pressa,
respondo que a meta
é viver mil anos no tempo
em que me resta,
somando bônus e descontando
os ônus desta conturbada festa.
Que sirva como aceno de um ateu,
naturalizar o derradeiro adeus.
Sem remédio ao que foi revelado,
o antídoto talvez passe
por mais descaso com o cuidado,
dando graças por jamais ter gasto
os ossos dos joelhos, penitente,
ante ao que pelo homem foi criado,
no non sense das barganhas
com algum deus e tantos diabos.
Vou fazer as contas,
cada dia terá de valer a pena,
mesmo que seja por me ir
sem rumo por vielas e veredas.
As rotinas estão banidas
e meus planos serão refeitos
sempre que me der na telha.
Dividirei as parcas moedas
do porquinho do dinheiro
pelo prazo que ainda tenho,
deixando alguma para o barqueiro.
Quanto aos tintos,
esvaziarei cada garrafa
espalhada pela casa,
investindo em homéricas ressacas
e se tiver que hastear uma bandeira,
nela estará estampada os traços
irônicos de uma risada.
As pílulas receitadas pelos médicos
descartarei nas águas da privada,
já sem tempo para moléstias da idade.
Em meio a ritos profanos,
fotos acumuladas pelos anos
arderão na pira dos desenganos,
me libertando do peso
das malditas memórias imaculadas.
Dormirei de janela escancarada
para não perder uma só noite
de lua cheia, chuva ou trovoada.
Enfim, desistirei da busca pelo sentido,
me curvando ao império
de cada um dos meus sentidos.
Amarei intensamente cada afeto
que esbarrar comigo
na eternidade de um mesmo dia.
Meu olhar rastreará
o completamente outro mas,
também, se deterá no que me cerca,
curado da cegueira
com o que, há muito, ronda perto.
De bom grado, deixarei meus livros
à porta de uma biblioteca
e os discos à guarda de uma criança
que ainda brinca de bonecas.
Quem sabe, tal infante
dê algum valor ao nome desimportante,
cingindo a terra em que nascemos ambos
com as raízes imigrantes
e, que ao ser do mundo,
não se esqueça do bairro
em que brincamos antes.
E, assim, me fique um pouco mais
na prole que não conhecerei jamais.
Quando ainda muito jovem,
julgava que chegar aos vinte
já era idade suficiente,
atestando o lucro certo
desta viagem sem regresso.
Só não me façam de santo
depois de morto.
Melhor espalhar as cinzas
do meu corpo
em algum campo de repolhos,
sob os uivos de um cão sarnoso,
tomado de piolhos.
Nada, ali, terá valor,
se algum houvesse, já se foi...

Eliseo Martinez
26.08.2022

terça-feira, 9 de agosto de 2022

413.

Dedo de deus?

Se os homens fossem tocados
pelo dedo divino,
ele pousaria sobre o lote de razão
que coube a cada indivíduo.
No entanto, essa dádiva da natureza  
nada deve de si a divindade.
Na verdade, a razão é a única
articulada o bastante para curar
o delirante dos delírios da deidade,
a que, em dias distantes,
achou por bem dar ares de realidade,
e dotar de mínima ordem
o imaginário dos povos originários.
Nem mesmo ela, a inteligência,
do cimo de sua qualidade criadora,
contava que tal invenção
grudasse na mente humana
e, agora, muitos são guiados
por estórias fantasiosas,
por vezes cruéis instrumentos
nas mãos daqueles que se dizem
intermediários entre os sapiens
criadores e o que foi criado por eles.
Apenas o trabalho do intelecto
pode mediar nossos medos,
estes sim, verdadeiros fazedores
de monstros, fantasmas,
sacis pererês e almas penadas,
além de toda a sorte de deuses
a que os desarrazoados,
passivamente, se acostumaram
a temer como rezes.

Eliseo Martinez
09.08.2022

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

412.

Das ondas e das correntes

Entre erros grosseiros
e os banais acertos corriqueiros,
ocupa o vasto espaço do meio
a débil certeza do que desconhecemos.
A opinião é coisa considerada,
tanto pelos que se empoleiram acima
quanto pelos que se esgueiram abaixo,
sendo o mar do "eu acho"
largo e raso como um charco
mas, nem por isso fácil
de ser atravessado, além trivial,
para o outro lado.
A falsa consciência, as ideologias
e as convicções do preconceito
assorearam de tal modo esse leito
que talvez só desmontando
e voltando ao princípio tome jeito.
As causas insistem e jazem insepultas
no labirinto das mentes infecundas.
A verdade não é a bala,
antes, é o dano do estilhaço;
assim como não é o arpão,
mas a intenção que move o braço.
As crenças que nos guiam à superfície,
mais abaixo, abrigam ninhadas
de preceitos sem sentido.
Ainda que o caminho surja do gesto
e do imaginário de muitos milhares,
é trilhado apenas pelo andarilho solitário,
enquanto a razão dorme seu sono intranquilo
no catre crivado de espinhos do desatino.
Se, para uns, as contradições neles contidas
passam como que desapercebidas,
tão leves como a brisa, sem o empenho
para que estejam de acordo consigo mesmos;
para outros, menos estrangeiros de si,
são fraturas doloridas que medem a loucura
que se carrega pela vida.
As ondas e as correntes do que se sente
movem o são, movem o demente;
movem o que diz não, movem o contente,
tortos que sejam, quase sempre
tropeçando passo a frente.
Que mais poderia dizer-se que nos favoreça
senão que das raças transitórias do planeta
somos, de longe, a mais pitoresca?

Eliseo Martinez
08.08.2022 

sábado, 6 de agosto de 2022

411.

E o que tem o mar pra nos contar

Saiu para ver o mar,
um antídoto à rigidez do coração
ao fazer lembrar nossa frágil condição.
E, agora, estava ali, sentado,
ante este cenário de som e fúria,
cheio de boa vontade com o que a vida
oferece de simples e belo,
alimento para as fomes mais singelas.
O mar sem fim, as ondas encapeladas,
o rugir das vagas, a espuma branca
quebrando sobre a areia crestada
a beijar a laje das rochas
eternamente banhadas.
Sobre sua cabeça revoam aves noturnas,
saídas do fundo da noite sem lua,
margeando entre a costa e as dunas.
Que mais desejar que um oásis surgido
do descuido destes tempos vorazes?
Alheio a tudo, assim, sem motivo
para estar em outro lugar senão neste,
tudo parece confirmar o retorno
da ordem, pouco a pouco alterada,
nas lides dos dias, minada.
Pena que nada no mundo
obedeça a um botão de liga-desliga.
De súbito, percebe que nem tudo
responde às euforias do desejo.
Quando olha, mal vê o mar
que seus pés estão quase a tocar.
Parece que as imagens em movimento
se recusam a ser impressas
no hardware de seu cérebro,
como que cobrando a longa ausência,
num alerta que talvez haja algo de errado
no modo em que nos acostumamos andar,
avisando-lhe que não tarde a voltar.
E o mar diz mais.
Diz que resistimos em enxergar
o que mais próximo está de nós.
Diz que, sem nos dar conta,
véus de neblina vão se sobrepondo
a tudo o que vemos,
sugando o sentido do que apenas sabemos
e que não há linha divisória
que nos previna do limite do desatino,
levando, em silêncio, a festa da vida à ruina...
Foi assim que entendeu que eram três
os que conversavam ali:
um intelecto, uma sensibilidade
e a velha mãe natureza que, sendo escutada,
sempre nos dá bons conselhos.
À distância e no silêncio das vozes que calam
são outras vozes que nos falam.
Contam sobre as vidas que vingam,
aprendendo o melhor jeito disso ser feito.

Eliseo Martinez
23.07.2022