414.
Vislumbre
neste dia claro de céu azul,
tive notícias de meu próprio fim,
num súbito deslumbre
do que será de mim.
Me despedirei em Torres,
à frente do oceano,
entre caipirinhas e casquinhas de siri,
girando olhos nas órbitas
feito doido colibri.
Meu corpo, então, já usado,
será corpo morto
mas, também, corpo grato.
Não, não quero teu consolo.
Apenas te adianto, sem entusiasmo
que, em que pese algum incômodo,
ali, mansamente, darei adeus
a tudo que povoa meu entorno.
Se perguntarem se tenho pressa,
respondo que a meta
é viver mil anos no tempo
em que me resta,
somando bônus e descontando
os ônus desta conturbada festa.
Que sirva como aceno de um ateu,
naturalizar o derradeiro adeus.
Sem remédio ao que foi revelado,
o antídoto talvez passe
por mais descaso com o cuidado,
dando graças por jamais ter gasto
os ossos dos joelhos, penitente,
ante ao que pelo homem foi criado,
no non sense das barganhas
com algum deus e tantos diabos.
Vou fazer as contas,
cada dia terá de valer a pena,
mesmo que seja por me ir
sem rumo por vielas e veredas.
As rotinas estão banidas
e meus planos serão refeitos
sempre que me der na telha.
Dividirei as parcas moedas
do porquinho do dinheiro
pelo prazo que ainda tenho,
deixando alguma para o barqueiro.
Quanto aos tintos,
esvaziarei cada garrafa
espalhada pela casa,
investindo em homéricas ressacas
e se tiver que hastear uma bandeira,
nela estará estampada os traços
irônicos de uma risada.
As pílulas receitadas pelos médicos
descartarei nas águas da privada,
já sem tempo para moléstias da idade.
Em meio a ritos profanos,
fotos acumuladas pelos anos
arderão na pira dos desenganos,
me libertando do peso
das malditas memórias imaculadas.
Dormirei de janela escancarada
para não perder uma só noite
de lua cheia, chuva ou trovoada.
Enfim, desistirei da busca pelo sentido,
me curvando ao império
de cada um dos meus sentidos.
Amarei intensamente cada afeto
que esbarrar comigo
na eternidade de um mesmo dia.
Meu olhar rastreará
o completamente outro mas,
também, se deterá no que me cerca,
curado da cegueira
com o que, há muito, ronda perto.
De bom grado, deixarei meus livros
à porta de uma biblioteca
e os discos à guarda de uma criança
que ainda brinca de bonecas.
Quem sabe, tal infante
dê algum valor ao nome desimportante,
cingindo a terra em que nascemos ambos
com as raízes imigrantes
e, que ao ser do mundo,
não se esqueça do bairro
em que brincamos antes.
E, assim, me fique um pouco mais
na prole que não conhecerei jamais.
Quando ainda muito jovem,
julgava que chegar aos vinte
já era idade suficiente,
atestando o lucro certo
desta viagem sem regresso.
Só não me façam de santo
depois de morto.
Melhor espalhar as cinzas
do meu corpo
em algum campo de repolhos,
sob os uivos de um cão sarnoso,
tomado de piolhos.
Nada, ali, terá valor,
se algum houvesse, já se foi...
Eliseo Martinez
26.08.2022