E o que tem o mar pra nos contar
um antídoto à rigidez do coração
ao fazer lembrar nossa frágil condição.
E, agora, estava ali, sentado,
ante este cenário de som e fúria,
cheio de boa vontade com o que a vida
oferece de simples e belo,
alimento para as fomes mais singelas.
O mar sem fim, as ondas encapeladas,
o rugir das vagas, a espuma branca
quebrando sobre a areia crestada
a beijar a laje das rochas
eternamente banhadas.
Sobre sua cabeça revoam aves noturnas,
saídas do fundo da noite sem lua,
margeando entre a costa e as dunas.
Que mais desejar que um oásis surgido
do descuido destes tempos vorazes?
Alheio a tudo, assim, sem motivo
para estar em outro lugar senão neste,
tudo parece confirmar o retorno
da ordem, pouco a pouco alterada,
nas lides dos dias, minada.
Pena que nada no mundo
obedeça a um botão de liga-desliga.
De súbito, percebe que nem tudo
responde às euforias do desejo.
Quando olha, mal vê o mar
que seus pés estão quase a tocar.
Parece que as imagens em movimento
se recusam a ser impressas
no hardware de seu cérebro,
como que cobrando a longa ausência,
num alerta que talvez haja algo de errado
no modo em que nos acostumamos andar,
avisando-lhe que não tarde a voltar.
E o mar diz mais.
Diz que resistimos em enxergar
o que mais próximo está de nós.
Diz que, sem nos dar conta,
véus de neblina vão se sobrepondo
a tudo o que vemos,
sugando o sentido do que apenas sabemos
e que não há linha divisória
que nos previna do limite do desatino,
levando, em silêncio, a festa da vida à ruina...
Foi assim que entendeu que eram três
os que conversavam ali:
um intelecto, uma sensibilidade
e a velha mãe natureza que, sendo escutada,
sempre nos dá bons conselhos.
À distância e no silêncio das vozes que calam
são outras vozes que nos falam.
Contam sobre as vidas que vingam,
aprendendo o melhor jeito disso ser feito.
Eliseo Martinez
23.07.2022
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