Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 26 de julho de 2023

462.


Ainda e sempre... tupy or nor tupy?

  Zé Celso Martinez se foi.
Se foi, mas não sem se deixar
um pouco por todo o lado
feito Baco redivivo desencarnado.
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Força manifesta da natureza,
libertino e libertário hedonista,
o mais lúcido dos loucos,
Zé Celso foi livre como poucos,
se é que, entre nós, já houve outros.
Este genial provocador anárquico,
curandeiro da apatia das plateias,
deu rumos novos ao mofo do teatro.
Artífice de conceitos, aríete
contra o muro dos preconceitos,
beijou maria, beijou joão,
amou e foi amado
por tantos e Drummond.
Sim, Zé Celso também deixou
desafetos pelos cravos cravados
na consciência dos mal amados.
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Guerrilheiro cultural, foi preso,
foi exilado e, ao seguir criando,
se foi aos palcos para dizer "não"
ao trivial domesticado.
Com a coragem dos que fazem
dos sonhos realidade,
encenou o amor difícil,
desses que se extraem a ferros
do medo e do constrangimento
de todo aquele que, por ele,
se viu despido.
Arauto de tropicalismos
e utopias multicoloridas,
abre-alas da cultura viva,
o arqueiro das flechas
envenenadas de sua arte
foi o saltimbanco insubmisso
desses dias tristes,
a armar tendas pelas praças,
ruas e andaimes do Oficina.
Incômodo e irreverente,
temido e reverenciado
pelo gume da palavra afiada,
soube tocar o nervo das coisas
para dessacralizar o que o raso
elegeu como sagrado.
Já empunhou velas para reis,
já esperou um tal Godot
que nunca vem...
Girou na Roda Viva,
festejou com as Bacantes,
despertou a Besta,
encarnou Demônios,
enfureceu igrejas com seus
Mistérios Gozosos; Fausto,
se foi pelos Sertões e nos deixou
em plena Queda do Céu,
em defesa dos povos da floresta.
Das artes que concebeu, Cacilda!,
como esquecer seu soneto
"Olho do Cu"?
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Zé Celso se foi da vida
para luzir no céu da arte
como archote luminar, mas
que não se derramem lágrimas
neste seu último caminhar.
Foi-se com a folia das bacantes,
o êxtase de faunos delirantes,
na batida dos pandeiros
e ao som do sopro de berrantes,
deixando no ar o rastro
da palavra itinerante:
"Eu sou tudo.
Sou louco.
Sou palhaço.
Sou livre."

Evoé, Zé Celso!

Eliseo Martinez
26.07.2023

sexta-feira, 14 de julho de 2023

461.

O desafio das letras

O risco a que se sujeita
o leitor voraz
é o que não experimentar
gosto algum definido
da sopa de ideias que
cozinhou por toda a vida,
sorvida dos livros lidos.
São tantos ingredientes,
tantos os temperos
misturados às essências
em seus variados tempos
de cozimento que não é difícil
que se evaporem os aromas
e confunda-se os sabores
do que estava destinado
a alimentar uma mente
ávida de conhecimento.
Caso chegue-se a uma só certeza
a que se possa chamar verdade,
ainda assim, ela se faria
de nuances e movimento.
As ideias verdejam
quando justas e verdadeiras,
mas muitas delas duram menos
que os frutos da laranjeira,
movendo-se não apenas pelo
acidentado chão da História
como também pelo rastro
de nossas pequenas trajetórias.
O que foi pensado antes,
provavelmente, será diferente
do que será adiante.
Quanto do que repousa
entre as páginas de um livro
sobreviverá a folha de papel
em que algum dia foi escrito?
Como não se vive para sempre
e nosso tempo é quase nada,
há que se lançar à escolha
das âncoras, das amarras
e dos cabeços de ancoragem
para que ainda haja norte
depois de atracar em praia brava,
sobre o mar de ideias
que flui revolto em toda parte.
E, assim, conforme bússola,
sextante ou astrolábio que se leve,
cada um abranda, de algum modo,
sua parcela de incerteza,
elegendo um punhado de conceitos,
testados a seu jeito,
para ser mais que vela solta à força
e inconstância dos elementos.

Eliseo Martinez
14.07.2023

domingo, 2 de julho de 2023

460.

Tarde na Redenção

Aqui, encontro-me eu,
sob um céu límpido de inverno,
abancado no mais amplo
dos jardins da minha terra,
descascando a última bergamota
- coisa que o gaúcho gosta -,
a desfrutar do ócio que me cabe.
Passam em minha cabeça leve
filmes jamais filmados,
misturando cenários do presente
a cenas do passado, enquanto
meu olhar, que tudo vê,
se espraia pela paisagem.
Liberados da guia,
cães se esbaldam pelos gramados,
voam pássaros alvoroçados
e gente apressada cruza o espaço
por certo, ainda cativa do trabalho,
sob uma brisa suave que agita
os ramos das árvores.
E, assim, sigo eu ensimesmado,
ao passo do pensamento lento,
sem horário que desmembre
meus momentos, desobrigado
de qualquer ato, na liberdade
possível em que me acho.
Mas, mas... que merda é essa?
Alguém, vindo não sei de onde,
acaba de sentar no banco de praça
em que me encontro,
arrancando-me dos devaneios
coalhados de incertezas,
a minar o sossego em que me vejo.
Tanto lugar desocupado
e o mala escolhe justo o MEU banco,
se esparramando ao MEU lado,
causando MEU espanto!
Na fenda aberta numa paz
de faz de conta, altera-se o entorno,
reduzindo minhas fronteiras
ao perímetro do meu corpo.
Mas nada dura mais que o necessário.
De pronto, tomo prumo, recomponho.
Levanto e vou embora
ou finco pé na posse do reduzido lote
em que estou agora?
A contragosto, arrisco um olhar
na direção do intruso inconveniente.
Já de alguma idade,
a despeito do ar brejeiro,
camisa clara de tecido transparente,
aberta ao peito; calça de linho branco;
sandálias franciscanas;
cabelos desgrenhados, alvos como leite
e obstinada dignidade exibida à face.
Do bolso do casaco pende um livro
que, de tanto que foi lido,
tem a capa de couro cru gasta pelo uso.
Em sua incômoda presença,
o tal sujeito parece ausente.
Traz nos lábios finos o risco
congelado de um sorriso,
de onde, vez por outra, escapa
o som quase imperceptível
de palavras indecifráveis.
Mas, não há loucura em seu olhar,
claro e transparente,
fixo em algum ponto mais à frente.
No que há de pensar o pobre diabo?
Estará triste ou contente?
De súbito, o grilo que abrigo
em mim desde guri na tenra idade
crica pelo o que há de indefinido
no estranho personagem.
Será que faz uma prece
ou refaz algum diálogo
para que não se esqueça?
Parece que pensa urgências que
eu mesmo desconheço no momento,
já que estou a gastar meu tempo
com o quê um não sei quem
tagarela em sua mente.
Pode ter sofrido perda grande,
talvez seja caso de um amor distante.
Pode ser testemunha, vítima
ou executor de um gesto horripilante.
Pode ser apenas um bem-aventurado
em seu êxtase suplicante...
Cultivar o hábito de vadiar o pensamento
nos leva a essas pequenas inconsequências
e, não raro, a algum constrangimento.
E contra tudo que me diz respeito,
sem refletir no que ainda será feito,
volto-me para ele e pergunto,
com natural falta de jeito:
- O senhor está bem?
Arrancado de seu transe, 
com vagar e ainda distante,
o homem se volta e olha-me nos olhos.
Com sorriso estudado
e voz teatral empostada, responde:
- Não há o que nos decifre
ou decifre qualquer outro.
  Nunca houve chão firme
em que se pise.
  Nada mais somos do que o traço
mal riscado no desenho todo,
nômades das circunstâncias,
sujeitos aos dentes afiados
do acaso no pescoço.
E prosseguiu em sua obscura lucidez:
- Espero por alguém que não virá,
enquanto isso, fico à cata de palavras
que carecem ser encontradas
por estarem prenhas de sentidos.
- Desculpe, mas... espera por alguém
que não virá e... está à cata de palavras?
Sem ter o que dizer, pergunto eu.
- Sim! Vê esses todos que passam
a nossa frente, exercitando
pernas, braços, torços?
  Faço o mesmo com a liberdade
que me cabe, exercito-a com escolhas.
  As mais difíceis e necessárias delas
faço com que se expandam,
esgotando-se no absurdo.
  Assim, torno-me ainda mais livre
nesta liberdade de esperar
pelo que jamais virá.
- Visto dessa forma, há lógica no que fala.
Mas, e quanto a cata das palavras?
- As palavras que saio à caça
são dessas que não nos vêm de graça.
Agora mesmo, encontrei algumas
que darão forma a sentimentos.
Sem elas, nem ao menos seriam
compreensíveis meus pensamentos.
- Mais que elas, encontrei um nome.
- Um nome?
- Sim. Para o livro que tenho escrito
por toda a vida, mas que estava à espera
das palavras o que o nomeasse.
- E quais são elas?
- Isso não posso revelar,
pois se o fizesse ele estaria, como
outros por mim escritos,
completamente concluído e, por fim,
decidi aceitar o inevitável.
- Que seria...
- O óbvio. Que tudo tem uma gênese,
mas quem disse que tem de ter um termo?
Não haveria música sem o som
e a pausa do silêncio, não é mesmo?
Sem mais palavras, o estranho
levanta-se do banco
e diz com um sorriso e gesto amplo:
- Evoé!, e sai andando.
De fato, "não há o que nos decifre
ou decifre qualquer outro".
Sigo o homem com os olhos
até sumir de vista e, só então,
percebo que havia deixado sobre o banco
o livro que trazia no seu bolso.
Faço menção de sair ao seu encalço,
mas já não há meios de encontrá-lo.
Evaporou no ar feito fumaça.
Pego o livro sem título, mas com o nome
do ator impresso num dourado gasto,
Zé (não sei o quê) Martinez,
e o abro com cuidado.
O livro começa assim:
"E, aqui, encontro-me eu,
sob um céu límpido de inverno,
abancado no mais amplo jardim
da minha cidade..."
Por estranho que pareça,
é como se já tenha lido
o que ali está escrito!


Eliseo Martinez
02.07.2023