460.
Tarde na Redenção
Aqui, encontro-me eu,
sob um céu límpido de inverno,
abancado no mais amplo
dos jardins da minha terra, descascando a última bergamota
- coisa que o gaúcho gosta -,
a desfrutar do ócio que me cabe.
Passam em minha cabeça leve
filmes jamais filmados,
misturando cenários do presente
a cenas do passado, enquanto
meu olhar, que tudo vê,
se espraia pela paisagem.
Liberados da guia,
cães se esbaldam pelos gramados,
voam pássaros alvoroçados
e gente apressada cruza o espaço
por certo, ainda cativa do trabalho,
sob uma brisa suave que agita
os ramos das árvores.
E, assim, sigo eu ensimesmado,
ao passo do pensamento lento,
sem horário que desmembre
meus momentos, desobrigado
de qualquer ato, na liberdade
possível em que me acho.
Mas, mas... que merda é essa?
Alguém, vindo não sei de onde,
acaba de sentar no banco de praça
em que me encontro,
arrancando-me dos devaneios
coalhados de incertezas,
a minar o sossego em que me vejo.
Tanto lugar desocupado
e o mala escolhe justo o MEU banco,
se esparramando ao MEU lado,
causando MEU espanto!
Na fenda aberta numa paz
de faz de conta, altera-se o entorno,
reduzindo minhas fronteiras
ao perímetro do meu corpo.
Mas nada dura mais que o necessário.
De pronto, tomo prumo, recomponho.
Levanto e vou embora
ou finco pé na posse do reduzido lote
em que estou agora?
A contragosto, arrisco um olhar
na direção do intruso inconveniente.
Já de alguma idade,
a despeito do ar brejeiro,
camisa clara de tecido transparente,
aberta ao peito; calça de linho branco;
sandálias franciscanas;
cabelos desgrenhados, alvos como leite
e obstinada dignidade exibida à face.
Do bolso do casaco pende um livro
que, de tanto que foi lido,
tem a capa de couro cru gasta pelo uso.
Em sua incômoda presença,
o tal sujeito parece ausente.
Traz nos lábios finos o risco
congelado de um sorriso,
de onde, vez por outra, escapa
o som quase imperceptível
de palavras indecifráveis.
Mas, não há loucura em seu olhar,
claro e transparente,
fixo em algum ponto mais à frente.
No que há de pensar o pobre diabo?
Estará triste ou contente?
De súbito, o grilo que abrigo
em mim desde guri na tenra idade
crica pelo o que há de indefinido
no estranho personagem.
Será que faz uma prece
ou refaz algum diálogo
para que não se esqueça?
Parece que pensa urgências que
eu mesmo desconheço no momento,
já que estou a gastar meu tempo
com o quê um não sei quem
tagarela em sua mente.
Pode ter sofrido perda grande,
talvez seja caso de um amor distante.
Pode ser testemunha, vítima
ou executor de um gesto horripilante.
Pode ser apenas um bem-aventurado
em seu êxtase suplicante...
Cultivar o hábito de vadiar o pensamento
nos leva a essas pequenas inconsequências
e, não raro, a algum constrangimento.
E contra tudo que me diz respeito,
sem refletir no que ainda será feito,
volto-me para ele e pergunto,
com natural falta de jeito:
- O senhor está bem?
Arrancado de seu transe,
com vagar e ainda distante,
o homem se volta e olha-me nos olhos.
Com sorriso estudado
e voz teatral empostada, responde:
- Não há o que nos decifre
ou decifre qualquer outro.
Nunca houve chão firme
em que se pise.
Nada mais somos do que o traço
mal riscado no desenho todo,
nômades das circunstâncias,
sujeitos aos dentes afiados
do acaso no pescoço.
E prosseguiu em sua obscura lucidez:
- Espero por alguém que não virá,
enquanto isso, fico à cata de palavras
que carecem ser encontradas
por estarem prenhas de sentidos.
- Desculpe, mas... espera por alguém
que não virá e... está à cata de palavras?
Sem ter o que dizer, pergunto eu.
- Sim! Vê esses todos que passam
a nossa frente, exercitando
pernas, braços, torços?
Faço o mesmo com a liberdade
que me cabe, exercito-a com escolhas.
As mais difíceis e necessárias delas
faço com que se expandam,
esgotando-se no absurdo.
Assim, torno-me ainda mais livre
nesta liberdade de esperar
pelo que jamais virá.
- Visto dessa forma, há lógica no que fala.
Mas, e quanto a cata das palavras?
- As palavras que saio à caça
são dessas que não nos vêm de graça.
Agora mesmo, encontrei algumas
que darão forma a sentimentos.
Sem elas, nem ao menos seriam
compreensíveis meus pensamentos.
- Mais que elas, encontrei um nome.
- Um nome?
- Sim. Para o livro que tenho escrito
por toda a vida, mas que estava à espera
das palavras o que o nomeasse.
- E quais são elas?
- Isso não posso revelar,
pois se o fizesse ele estaria, como
outros por mim escritos,
completamente concluído e, por fim,
decidi aceitar o inevitável.
- Que seria...
- O óbvio. Que tudo tem uma gênese,
mas quem disse que tem de ter um termo?
Não haveria música sem o som
e a pausa do silêncio, não é mesmo?
Sem mais palavras, o estranho
levanta-se do banco
e diz com um sorriso e gesto amplo:
- Evoé!, e sai andando.
De fato, "não há o que nos decifre
ou decifre qualquer outro".
Sigo o homem com os olhos
até sumir de vista e, só então,
percebo que havia deixado sobre o banco
o livro que trazia no seu bolso.
Faço menção de sair ao seu encalço,
mas já não há meios de encontrá-lo.
Evaporou no ar feito fumaça.
Pego o livro sem título, mas com o nome
do ator impresso num dourado gasto,
Zé (não sei o quê) Martinez,
e o abro com cuidado.
O livro começa assim:
"E, aqui, encontro-me eu,
sob um céu límpido de inverno,
abancado no mais amplo jardim
da minha cidade..."
Por estranho que pareça,
é como se já tenha lido
o que ali está escrito!
Eliseo Martinez
02.07.2023