O desafio das letras
O risco a que se sujeita
o leitor voraz
gosto algum definido
da sopa de ideias que
cozinhou por toda a vida,
sorvida dos livros lidos.
São tantos ingredientes,
tantos os temperos
misturados às essências
em seus variados tempos
de cozimento que não é difícil
que se evaporem os aromas
e confunda-se os sabores
do que estava destinado
a alimentar uma mente
ávida de conhecimento.
Caso chegue-se a uma só certeza
a que se possa chamar verdade,
ainda assim, ela se faria
de nuances e movimento.
As ideias verdejam
quando justas e verdadeiras,
mas muitas delas duram menos
que os frutos da laranjeira,
movendo-se não apenas pelo
acidentado chão da História
como também pelo rastro
de nossas pequenas trajetórias.
O que foi pensado antes,
provavelmente, será diferente
do que será adiante.
Quanto do que repousa
entre as páginas de um livro
sobreviverá a folha de papel
em que algum dia foi escrito?
Como não se vive para sempre
e nosso tempo é quase nada,
há que se lançar à escolha
das âncoras, das amarras
e dos cabeços de ancoragem
para que ainda haja norte
depois de atracar em praia brava,
sobre o mar de ideias
que flui revolto em toda parte.
E, assim, conforme bússola,
sextante ou astrolábio que se leve,
cada um abranda, de algum modo,
sua parcela de incerteza,
elegendo um punhado de conceitos,
testados a seu jeito,
para ser mais que vela solta à força
e inconstância dos elementos.
Eliseo Martinez
14.07.2023
Nenhum comentário:
Postar um comentário