Ainda e sempre... tupy or nor tupy?
Se foi, mas não sem se deixar
um pouco por todo o lado
feito Baco redivivo desencarnado.
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Força manifesta da natureza,
libertino e libertário hedonista,
o mais lúcido dos loucos,
Zé Celso foi livre como poucos,
se é que, entre nós, já houve outros.
Este genial provocador anárquico,
curandeiro da apatia das plateias,
deu rumos novos ao mofo do teatro.
Artífice de conceitos, aríete
contra o muro dos preconceitos,
beijou maria, beijou joão,
amou e foi amado
por tantos e Drummond.
Sim, Zé Celso também deixou
desafetos pelos cravos cravados
na consciência dos mal amados.
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Guerrilheiro cultural, foi preso,
foi exilado e, ao seguir criando,
se foi aos palcos para dizer "não"
ao trivial domesticado.
Com a coragem dos que fazem
dos sonhos realidade,
encenou o amor difícil,
desses que se extraem a ferros
do medo e do constrangimento
de todo aquele que, por ele,
se viu despido.
Arauto de tropicalismos
e utopias multicoloridas,
abre-alas da cultura viva,
o arqueiro das flechas
envenenadas de sua arte
foi o saltimbanco insubmisso
desses dias tristes,
a armar tendas pelas praças,
ruas e andaimes do Oficina.
Incômodo e irreverente,
temido e reverenciado
pelo gume da palavra afiada,
soube tocar o nervo das coisas
para dessacralizar o que o raso
elegeu como sagrado.
Já empunhou velas para reis,
já esperou um tal Godot
que nunca vem...
Girou na Roda Viva,
festejou com as Bacantes,
despertou a Besta,
encarnou Demônios,
enfureceu igrejas com seus
Mistérios Gozosos; Fausto,
se foi pelos Sertões e nos deixou
em plena Queda do Céu,
em defesa dos povos da floresta.
Das artes que concebeu, Cacilda!,
como esquecer seu soneto
"Olho do Cu"?
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Zé Celso se foi da vida
para luzir no céu da arte
como archote luminar, mas
que não se derramem lágrimas
neste seu último caminhar.
Foi-se com a folia das bacantes,
o êxtase de faunos delirantes,
na batida dos pandeiros
e ao som do sopro de berrantes,
deixando no ar o rastro
da palavra itinerante:
"Eu sou tudo.
Sou louco.
Sou palhaço.
Sou livre."
Evoé, Zé Celso!
Eliseo Martinez
26.07.2023
Um dos maiores nomes do teatro brasileiro.
ResponderExcluirLider do Teatro Oficina, influenciou gerações e foi uma das vozes mais provocativas nos palcos, com suas peças ousadas, provocativas e um tanto escatológicas.
O velho rebelde que tanto nos fez pensar deixa uma obra que é considerada uma revolução no teatro nacional.
Zé Celso Martinez, seus sonhos, delírios e sua liberdade.
Vi pela primeira vez essa figura estranha e arrebatadora, Zé Celso Martinez, quando apareceu com sua pequena trupe, sem aviso, do nada, no recém inaugurado Campos da UFRGS, no final da década de 70 e antes mesmo de sala de teatro, se apresentou pelas escadarias e corredores do prédio da Filosofia, sob o olhar estupefato e, depois, extasiado de alunos, professores e funcionários pela liberdade de expressão que trazia com ele. Pessoa e ator ímpar.
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