Tantos somos
Tantos e tão contrários
cada um abriga no próprio peito
que, não raro, leva consigo legiões
de estranhos a se estranharem
na fluidez do tempo.
Longe do seixo mal percebido
pelo olho seco dos sentidos,
somos o feixe dos múltiplos
que, imprecisos, nos definem.
Há os que, sem muito,
sobressaem aos outros;
há os que rondam tímidos
pela escuridão dos cantos
e há aqueles que necessitam
que os acordem do sono profundo,
imprevisíveis neste seu espanto
de se verem nus no mundo.
Como seria coisa outra
se nada é mais diverso
que o plano e a linha reta
no relevo da complexa
polifonia do universo?
A síntese da unidade,
a incensar vontades de triunfo
sobre o caos de fundo
não é mais que a obsessão
da humanidade de reduzir
ao compreensível o que, por força,
ainda mereça ser chamado de verdade.
Virá o tempo que esses todos
se fundirão no mesmo?,
perguntará o desavisado tolo,
esperançoso num fim que se
assemelhe a um consolo.
E, em meio ao alarido incontido
das vozes sobrepostas,
lhe faltarão ouvidos para distinguir
a dissemelhança das respostas.
Eliseo Martinez
08.09.2023
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