Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

487.

Ética, Moral e Movimento


A Ética, no âmbito da norma
e a Moral, no campo prático,
se movem a passos lentos,
como cágados que passeiam ao relento.
Ambas, ao dar alguma solução
aos espinhos finos do preconceito,
a custo, legitimam comportamentos,
amenizando dores intensas
para fundar velhos novos tempos.
Sim, tudo fica e tudo muda,
feito ondas que sobre as areias
da praia se debruçam!
A desconfiança ante a grande moral,
nascida do olhar atento
e da dor íntima da experiência,
prospera no ímpeto da intuição
de por a verdade sob suspeita,
já que mais do que a razão,
necessita de forças enclausuradas
no inconsciente que a sustente.
Ser capaz de ousar decompor
a polifonia das vozes em acordo
dos que se alternam no comando
e compor a própria voz,
solitária e sem roteiro pronto,
tendo como certo um espaço
de caos interior que não negue
o imponderável que habita em nós,
criadouro de medos, angústias
e, também, da imaginação que insufla,
gera um novo movimento
no interior do espaço temporal.
E o tempo, que só existia
enquanto fenômeno natural,
agora, também é cria do devir humano,
no giro incerto da roda da história,
rica em danos e desenganos,
grávida de conquistas e vitórias,
traduzidas nas mentiras dos vencedores.

Eliseo Martinez
30.10.2024

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

486.

A "Jornada de um Imbecil ao Entendimento"


Tão mais simples seria dar crédito
às cartas, horóscopos e búzios;
dar ouvidos a presságios,
ziquiziras, benzeduras;
entregar-se às rezas, temer olho gordo
e bradar hosana às ditaduras.
Provavelmente, mais espaço
à musa da poesia se abriria
na seara dessas brumas obscuras.
O que sugere ser Calíope
a mais bela das prostitutas,
negociando, sem pudor,
além do amor, forma e conteúdo.
Ah!... Já que a vida é curta,
que tolos somos em não nos deixar
seduzir pelo útil da razão sintética,
que torna possível o pensamento
mesmo na mais completa
ausência de conhecimento.
Mas sempre há um pouco mais
a ser urdido no tear em que é tecida
a trama do drama humano.
Coisas que a todo o momento
saltam aos olhos dos que mantém
abertos os seus próprios, nos sendo difícil,
- por vezes, mesmo impossível -,
voltar atrás de cada pequeno
e árduo passo que se dá.
Pelos idos dos anos cinquenta
do século passado, o inglês Arnold Toynbee
já calculava que o excesso de informação
apontava para o colapso da civilização.
Isso que o uso dos incipientes computadores
não era disseminado e, muito menos, sobre
a Inteligência Artificial se havia cogitado.
Referia-se a avalanche de dados,
minimamente processados,
suportada na vigília,
ao longo de uma vida e, ainda antes,
com a descoberta do inconsciente,
os mundos que descortinamos no sono,
a reparar danos em nossas mentes.
O que nos dias se afigura aos sentidos,
às noites, passa em recortes sobrepostos
em nossos sonhos,
adensando o caleidoscópico movimento
da subjetividade que, no passado
e, ainda hoje, é chamado alma,
por mero apreço ao veio literário.
Descobrir quem se é e o que é o mundo
é tarefa das mais insolúveis
para qualquer um que se aventure
pelas intrincadas equações
que definem criação e criatura.
Mesmo a Ciência, a superar seus
velhos paradigmas, se reformula.
Mas, se a alguém sirva de consolo,
ao menos pode-se saber que a certeza
mais certa gravada no oco
do crânio de um crente,
fiel a ideia de um criador onipotente,
não é mais do que um engodo que colou,
ainda que repetida cegamente.
É nestas horas que me salta das dobras
da memória a imagem de Plínio Marcos
nos gramados da USP,
na memorável SBPC, de setenta e oito,
vendendo de mão em mão a "Jornada
de um Imbecil ao Entendimento",
enquanto matava a fome
comendo de um saquinho de biscoito.

Eliseo Martinez
25.10.2024

terça-feira, 8 de outubro de 2024

485.

Ateu


Com tantos de joelhos
e mãos estendidas para o alto,
na espera inútil de alguma graça diligente
ou sinal que os oriente,
depositando esperanças em entes imaginários,
criados pelos mestres ancestrais
dos que hoje não passariam de falsários,
ainda jovem, foi se alinhando contra o engodo
dos que lucram agenciando favores
do suposto pastor do rebanho,
com olhos postos no bezerro de ouro.
Uma horda de arautos e sacerdotes
das mais diversas hostes religiosas,
hábeis ilusionistas a valer-se do medo
de irascíveis, simplórios, abstrusos,
justificando com seus mitos
todo o mal que há no mundo.
Na contramão dos sectos de crédulos,
insistia que religiões mais mal fizeram que bem
e as igrejas não passam de empresas
ávidas em multiplicar, não mais o pão e o vinho,
mas o poder e a riqueza,
fiéis apenas a seculares interesses terrenos.
Dispostos a calar as vozes de insubmissos e ateus,
investidos dos poderes do Céu,
tornou-se alvo do ódio dos eleitos de Deus.
Não era um Ginsberg, um Kerouac ou Burroughs
mas ainda que anônimo,
mais por intuição do que premeditada adesão,
assemelhado aos cínicos de Antístenes,
ameaçava a ordem emanada da Palavra.
Não merecia menos que línguas de fogo
e o cheiro pútrido de enxofre
ao transpor o umbral dos que se foram.
Secretamente, na magia das preces,
os beatos untavam com veneno
suas pontas de flechas.
De fato, morreu no avançado da idade,
com uma desconcertante paz no semblante
e um impróprio sorriso nos lábios.
Lábios que beijaram bocas, seios, regaços,
afeiçoados aos humores dos corpos
e aos licores dos copos.
Contam que na cerimônia de adeus,
foi-se enredado entre coxas de moça,
na folia dos que pecaram nesta vida
para prestar contas em outra.
Para alívio dos puros de alma,
a ovelha desgarrada fora, enfim, sacrificada,
enquanto a velha e temerária harmonia
era, mais uma vez, restaurada.
Com a habitual hipocrisia
e o silêncio complacente de sempre,
regozijavam-se os fiéis penitentes,
certos de que o bem, mais uma vez,
vencera o mal da ousadia de negar
o que o mais tosco dos homens sabia.
Só não mais podiam tirar-lhe
o gosto da vida vivida,
deixando no sombrio da mente dos crentes
o lume desconfortável da dúvida
de que acima de criador e sagrado
existe o homem por os ter, ele mesmo, criado.

Eliseo Martinez
08.10.2024