Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 8 de outubro de 2024

485.

Ateu


Com tantos de joelhos
e mãos estendidas para o alto,
na espera inútil de alguma graça diligente
ou sinal que os oriente,
depositando esperanças em entes imaginários,
criados pelos mestres ancestrais
dos que hoje não passariam de falsários,
ainda jovem, foi se alinhando contra o engodo
dos que lucram agenciando favores
do suposto pastor do rebanho,
com olhos postos no bezerro de ouro.
Uma horda de arautos e sacerdotes
das mais diversas hostes religiosas,
hábeis ilusionistas a valer-se do medo
de irascíveis, simplórios, abstrusos,
justificando com seus mitos
todo o mal que há no mundo.
Na contramão dos sectos de crédulos,
insistia que religiões mais mal fizeram que bem
e as igrejas não passam de empresas
ávidas em multiplicar, não mais o pão e o vinho,
mas o poder e a riqueza,
fiéis apenas a seculares interesses terrenos.
Dispostos a calar as vozes de insubmissos e ateus,
investidos dos poderes do Céu,
tornou-se alvo do ódio dos eleitos de Deus.
Não era um Ginsberg, um Kerouac ou Burroughs
mas ainda que anônimo,
mais por intuição do que premeditada adesão,
assemelhado aos cínicos de Antístenes,
ameaçava a ordem emanada da Palavra.
Não merecia menos que línguas de fogo
e o cheiro pútrido de enxofre
ao transpor o umbral dos que se foram.
Secretamente, na magia das preces,
os beatos untavam com veneno
suas pontas de flechas.
De fato, morreu no avançado da idade,
com uma desconcertante paz no semblante
e um impróprio sorriso nos lábios.
Lábios que beijaram bocas, seios, regaços,
afeiçoados aos humores dos corpos
e aos licores dos copos.
Contam que na cerimônia de adeus,
foi-se enredado entre coxas de moça,
na folia dos que pecaram nesta vida
para prestar contas em outra.
Para alívio dos puros de alma,
a ovelha desgarrada fora, enfim, sacrificada,
enquanto a velha e temerária harmonia
era, mais uma vez, restaurada.
Com a habitual hipocrisia
e o silêncio complacente de sempre,
regozijavam-se os fiéis penitentes,
certos de que o bem, mais uma vez,
vencera o mal da ousadia de negar
o que o mais tosco dos homens sabia.
Só não mais podiam tirar-lhe
o gosto da vida vivida,
deixando no sombrio da mente dos crentes
o lume desconfortável da dúvida
de que acima de criador e sagrado
existe o homem por os ter, ele mesmo, criado.

Eliseo Martinez
08.10.2024

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