A "Jornada de um Imbecil ao Entendimento"
às cartas, horóscopos e búzios;
dar ouvidos a presságios,
ziquiziras, benzeduras;
entregar-se às rezas, temer olho gordo
e bradar hosana às ditaduras.
Provavelmente, mais espaço
à musa da poesia se abriria
na seara dessas brumas obscuras.
O que sugere ser Calíope
a mais bela das prostitutas,
negociando, sem pudor,
além do amor, forma e conteúdo.
Ah!... Já que a vida é curta,
que tolos somos em não nos deixar
seduzir pelo útil da razão sintética,
que torna possível o pensamento
mesmo na mais completa
ausência de conhecimento.
Mas sempre há um pouco mais
a ser urdido no tear em que é tecida
a trama do drama humano.
Coisas que a todo o momento
saltam aos olhos dos que mantém
abertos os seus próprios, nos sendo difícil,
- por vezes, mesmo impossível -,
voltar atrás de cada pequeno
e árduo passo que se dá.
Pelos idos dos anos cinquenta
do século passado, o inglês Arnold Toynbee
já calculava que o excesso de informação
apontava para o colapso da civilização.
Isso que o uso dos incipientes computadores
não era disseminado e, muito menos, sobre
a Inteligência Artificial se havia cogitado.
Referia-se a avalanche de dados,
minimamente processados,
suportada na vigília,
ao longo de uma vida e, ainda antes,
com a descoberta do inconsciente,
os mundos que descortinamos no sono,
a reparar danos em nossas mentes.
O que nos dias se afigura aos sentidos,
às noites, passa em recortes sobrepostos
em nossos sonhos,
adensando o caleidoscópico movimento
da subjetividade que, no passado
e, ainda hoje, é chamado alma,
por mero apreço ao veio literário.
Descobrir quem se é e o que é o mundo
é tarefa das mais insolúveis
para qualquer um que se aventure
pelas intrincadas equações
que definem criação e criatura.
Mesmo a Ciência, a superar seus
velhos paradigmas, se reformula.
Mas, se a alguém sirva de consolo,
ao menos pode-se saber que a certeza
mais certa gravada no oco
do crânio de um crente,
fiel a ideia de um criador onipotente,
não é mais do que um engodo que colou,
ainda que repetida cegamente.
É nestas horas que me salta das dobras
da memória a imagem de Plínio Marcos
nos gramados da USP,
na memorável SBPC, de setenta e oito,
vendendo de mão em mão a "Jornada
de um Imbecil ao Entendimento",
enquanto matava a fome
comendo de um saquinho de biscoito.
Eliseo Martinez
25.10.2024
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