Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 2 de abril de 2026

519.

Os Persas

Que sabemos nós dos que,
hoje, chamam "inimigos",
senão pelas histórias
contadas por gregos,
em suas sagas
de derrotas e vitórias,
envoltas em segredos,
traições e heroísmo?
Sabemos algo de Ciro,
de Dario e de Xerxes,
a dinastia Aquemênida,
que deu origem aos persas...
Nem os que hoje se arvoram,
mais que senhores do mundo,
mas donos da verdade absoluta,
sabiam de tudo
e, como crianças levadas,
com seu brinquedos de guerra,
cruzados em armas,
tentaram humilhá-los,
fazendo pouco não de um líder
ou de um regime,
mas da civilização milenar,
cobiçosos de seus poços de óleo,
temerosos da geopolítica
de seu território.
Desta vez, yankees e sionistas,
como se dizia no passado,
"tomaram o bonde errado",
montaram a cena e, agora,
mal podem esperar à deixa
para se evadir do cenário.
Não contavam com os mísseis,
os drones, o domínio
da ancestral arte da guerra
e a tradição da vingança justa,
o olho por olho da Lei de Talião,
surgida no fundo dos tempos,
entre as tribos da região.
Não se trata de  defender
teocratas de Teerã,
mas de acreditar que mais
do que a um povo de escolhidos,
a todos pertence o amanhã.
Vidas se perdem de ambos os lados.
Há pouco, Israel fazia da Palestina,
terra arrasada,
enquanto a ganância americana
tramava projetos imobiliários.
Restou ao povo palestino
a terra devastada, encharcada
pelo sangue de mulheres e crianças
cruelmente assassinadas.
Na Terra Santa,
poucos se levantaram
contra a matança em Gaza.
Os sionistas regozijavam
e, do caos que criaram,
criaram coragem...
A frente do império em derrocada,
um pedófilo psicopata
aliou-se ao "carniceiro de Gaza",
tirando velhos planos do armário
para fazer do soberano Irã
mais um satélite bem comportado.
Ao fim de um mês de combates,
não foi bem o que produziram
seus atos covardes.
Caixões cobertos por panos listrados
de branco e encarnado
começaram a cruzar o oceano,
de volta para casa.
O "domo de ferro" se fez em nada
e os céus de Tel Aviv, Dimona,
Jerusalém e Haifa
têm suas noites iluminadas
pelo fogo da ira, seus bairros
não são mais que escombros,
suas casas ruínas.
Guerras são desprezíveis,
liberam a força maligna
de ódios contidos mas, às vezes,
trazem em suas ogivas
o que resta de justiça!

Eliseo Martinez
01.04.2026

sábado, 7 de fevereiro de 2026

518.

Queriam-me contente

Queriam-me mais contente,
rodeado de amigos, vizinhos e parentes,
mas será mesmo que este é caminho
que sirva a toda gente
ou apenas um meio de aplacar
as diferenças que afligem corações
sequiosos de serem guiados
por um mesmo trilho
onde deslizem sem conflitos,
atrelados ao comboio dos vagões?
Qual sorriso querem ver tatuado
no meu rosto?
O da alegria de uma criança,
já não tem como;
o do palhaço Arrelia,
sorriso morto,
ou o sorriso que barganha simpatias,
longe do que eu posso nestes dias?
Sou aquele que, por amar a vida,
cumulou-se de desgostos
e acabou ficando assim,
meio manco, meio torto.
Espinhos cravados mais ao fundo
são o preço pago por ter olhos
postos no mundo.
Coisa das mais estranhas
nessa nossa aventura humana
é que, ainda que fincados à carne,
muitos se recusam
a deixar de saber do que sabem.
Talvez a origem
do que há a ser corrompido
no espírito de um indivíduo
seja negar esse simples princípio.
Queriam-me contente...

Eliseo Martinez
07.02.2026

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

517.

Cru

É tão cru o que tuas palavras trazem,
que mal posso ver poesia
nos versos que tu fazes.
Sê mais alegre, te faça mais contente,
pense em ser como toda gente,
ensaiando sorrisos, displicente.
Aprende a transitar por amenidades,
joga algumas fichas em uma divindade.
Quem sabe,
tenta a sorte no bilhete premiado,
reza brava, ou patuá bem trabalhado.
Sai ao sol, dá uma pernada,
liga para uma antiga namorada!
E, se nada der certo, consulte os astros,
eles podem não te dizer nada,
mas sempre trazem
alguma mensagem indecifrável
como solução à tudo o que não se sabe.
A vida é curta,
vale mais a pena seguir na corrente,
ninguém é ilha, somos continente.
Agora! Se, alguma vez,
não te reconheceres à frente do espelho,
não liga não, é assim mesmo.
Não seremos tão estranhos,
se recuando, nos vermos à distância.
É o que se faz para continuar andando,
chamam isso de esperança.
E, jamais te esqueças, paga-se um preço
por compartilhar o endereço.

Eliseo Martinez
02.02.2026

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

516.

As Palavras e as Coisas
(sobre paz e felicidade,
com o perdão de Sartre!)

Sombrios são os labirintos da mente
por onde sonhos alçam voo
em asas de morcegos,
rastejam ilusões feito percevejos
e esgueiram-se as razões,
plantadas sabe-se lá de onde
no âmago de toda a gente,
com suas luzes de archotes
que a teimosia humana acende
nas crenças inúteis de sua aposta.
Os paraísos são variados,
mesmo que tecidos dos mesmos
delírios sem sentido,
quase sempre feitos das imagens
que por toda a eternidade
animam os passos da humanidade,
reluzindo, meio sujos, meio turvos,
ao fim desses túneis intermináveis.
Mas, sejamos honestos!
Ao menos, menos cegos,
como fazem velhos céticos
cumulados de revezes.
Aos que na paz tão almejada,
por escassa fé ou à falta de mais vaga,
façam do Éden sua breve morada,
os interstícios do destino
lhes reservam uma silenciosa agonia
a crescer-lhes a cada dia
no cerne do que os tornam
o que não mais seriam,
onde o coração das gentes,
imerso em morna alegria,
acaba por bater em desespero,
sempre do mesmo jeito.
*  Trocando em miúdos,
bem pode a nau da paz,
refém das calmarias,
ser dragada pelo mar inóspito
da monotonia!
Os mais ávidos de resultados,
tocados pelos dedos desgovernados
do acaso, na terra da bem aventurança
verão tremular a flâmula da felicidade
hasteada no mais alto mastro.
Ainda que, por puro cansaço,
também essa minguada horda de eleitos
se dissolverá na paisagem,
assolada pelo tédio
a consumir-lhe o espírito
até não haver mais que enfado,
fazendo dos antes alvissareiros escolhidos
os quase-benditos felizardos.
** Trocando em miúdos,
as areias douradas da felicidade,
lambidas pelo mar bravio,
reino de maremotos e tempestades,
sem prévio aviso fazem-se em miragens
para o náufrago que jamais
alcançará as suas margens.
Então, o que mais resta?
Restam os labirintos,
entre o lodo e a opaca claridade,
o roçar das rochas na pele esfolada,
o calor, o medo e a umidade,
onde proliferam esperanças sem razão,
se recriam fantasias sem perdão
e engravidam-se as ilusões...
E, com tudo isso,
não somos menos que um milagre,
pouco provável, da evolução.
Sem reino dos céus ou deus de ocasião
que tome conta do maldito bordel,
nem sequer o galante cavalheiro
a lhe estender a mão!

Eliseo Martinez
29.01.2026