Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 29 de março de 2016

48.

DENSO


Denso!  É do que me acusam.  Mas será, mesmo,
que temos de mutilar-nos, curando-nos da inquietude,
tornados leves por contornar as próprias lacunas,
a seguir sem o peso, quer das respostas, quer das dúvidas,
que é o preço a pagar pelas incômodas perguntas postas?
Quase dá pra admirar esses trapezistas a se equilibrar
sobre a corda esticada entre as fachadas,
sem habitar a própria casa, deixada abandonada.
Ao faltar-me o pé, ao cabo da última pugna, escolho tombar  como saco amontoado, sem rede ou cuidado,
a ter de borboletear casual, com performance de artista,
mantendo a graça habitual, num derradeiro esforço
de pertencer, no afã de parecer normal e, mais tarde,
no escuro, só, guardado dos olhares, ganir feito animal.
Desculpem-me declinar novamente deste teatro horripilante.
Deve ser sina de andarilho acostumado a tropeçar pelas trilhas.
À plateia, mais uma vez, mando à merda, com o afeto que me
resta, na esperança de que, cada um dos presentes em festa, encontre coragem suficiente para aceitar os riscos da viagem e, ao voltar das voltas pelo mundo, belo e selvagem,
corpo ferido, paz na alma,
tome posse de sua morada, agora, salva...
ao lado de quem nos lamba as feridas
que confirmam nossas vidas.

Eliseo Martinez
29.03.2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

47.

ESCREVE-SE PARA QUÊ?   ( II )


Escreve-se para não se esquecer de si;
para saber como se está,
reter o que der, manter guardado o que dá,
temendo perder-se, extraviado de tanto esvaziar;
para que, se não se chegar a conhecer,
ter o contorno de um rosto para se reconhecer,
e ter o que recordar.
Não basta o chão para se andar,
tem de haver os passos para nele dar,
e compasso para traçar o traço desse pisar.
Escreve-se para lembrar do que se é,
para tentar ser ou se imitar,
para que não se vá sem ao menos ter tentado ficar.
Escreve-se como a se espalhar vaga-lumes,
para, à escuridão da noite,
com algum lume contar e, quem sabe,
já com os olhos cegos, de tanto  procurar,
descobrir alguma beleza sob o limo da laje,
e a nós mesmos achar.
Escreve-se para morrer em paz.

Eliseo Martinez
23.03.2016

domingo, 20 de março de 2016

46.


COMO OS PONTOS DE UM PESPONTO


Sigo à busca de coisas. Além de tijolos,
sensíveis aos sentidos, falo das coisas invisíveis,
que são feitas de ideias, nesta interminável procura,
no princípio da polis, chamada alethéia,
pela qual muitos homens viveram e outros tantos pereceram.
Esta nossa estranha raça é um coágulo de frágeis gotas de gente, grávida de sonhos, gigante na mente.
Gerações de cágados, cada um vivendo mais de um século,
antes de fazer-se ossário, rastejarão à sombra da sequoia,
que estará lá por bem mais de mil aniversários.
Em nossa exígua existência, de alguma misteriosa forma,
passamos algo aos que estão chegando de fora.
Foi assim que inventamos rios de conceitos,
arquipélagos de trejeitos e o pântano dos preconceitos,
a batata frita, o lápis que risca, a arte que imita,
a torradeira e o fusca, deuses que assustam
e tantas outras história ricas e, ainda outras, malucas.
Mesmo com o mal e o medo que já veem costurados
à alma da espécie e o peso das pedras que carrega um vivente,
é um feliz acaso ser-se ser-humanos
neste curto período mundano,
cortado na medida em que o amor nos dê resistência
e a tudo o mais nos permita a difícil permanência.
Quanto a mim ?
Ainda descubro o que  vou transmitir aos que vem por ai ... 

Eliseo Martinez
19.03.2016

quinta-feira, 17 de março de 2016

45.

SEMANA QUEBRADA

Surgida a brecha, quebra-se a semana, sem pressa.
Montado num animal alaranjado, de aço cromado,
como se indomável besta fêmea fosse,
mas carecendo de gênero, com certeza, seria macho,
saí ontem pela tarde, sem destino que me aguardasse.
Só o vento na cara e o rosnar rouco da Harley,
numa dessas tréguas da mente,
em que se aguçam os sentidos
e explodem nenúfares pelo corpo da gente,
como os que surgem em um braço de rio selvagem.
Mil e seiscentas cilindradas, adrenalina,
uma estrada abandonada, alma tranquila.
O som de esteira do motor com o assobio dos ares
compõem a desassossegada balada estradeira.
Cheiro de mato úmido ladeando o asfalto rachado;
olhar que surfa no giro das curvas reclinadas;
mãos firmes seguram a besta que vibra e;
na boca, o gosto seco do ar fresco.
Mas, dos sentidos, é a intuição que doma
os quatrocentos quilos do animal de metal.
Viaja-se, assim, duas vezes em uma só viagem.
Entre as árvores, bicho encilhado, apeado e espreguiçado,
roupas na relva atiradas, dentro d'água, livres braçadas.
O silêncio escutado nasce do desterrado ruído humano.
Ressurge a liberdade como uma bem vinda espécie de metástase.
Dia claro, ensolarado, da lua acompanhado;
o calor ameno anima o voo rasante das aves.
Nada mais simples do que a verdade simples das Harleys.
Nestes recreios, a vida dura pode ser leve
como uma miragem que com as mãos se pegue.



EM TEMPO:
Se ontem peguei a estrada desgarrado,
eu mais o tal animal domado,
hoje, galopa a meu lado
uma amazonas também nele montado,
e a quatro braços são as braçadas
nas mesmas águas dadas.
Semana quebrada !

Eliseo Martinez
16.03.2016

segunda-feira, 14 de março de 2016

44.

RECONHECIMENTO II


O RECONHECIMENTO é uma volta
que nos permite conhecer-nos novamente.
É presente dos que julgam ter recebido algo da gente.
A gratidão, insubmissa, teima a andar na contramão,
na congestionada autoestrada
do frenético interesse imediato,
a correr por sempre se achar atrasado.
Sorte nossa, poder contar com a espécie de caos
provocado por esse ato de trégua, vez a vez, inesperado
que, ao desbanalizar com um "muito obrigado",
humaniza, revelando a desordem da ordem arbitrada
às vorazes ovelhas da manada.

Eliseo Martinez
14.03.2016

domingo, 6 de março de 2016

43.

DELICADA BELEZA


Tal qual pinceladas alvas, que se distinguem ao tingir paredes
a muito caiadas, a DELICADEZA sobressai em meio aos dotes
de toda a gente. É, em si, uma beleza diferente. Tem a ver com   o encanto da paz dos remansos, a brisa que ondula a relva nos campos, a suave melodia de velhos cânticos, apaziguando ancestrais demônios tântricos. É o viço da graça que, ao mesmo mundo, respondeu-lhe com uma natural virtude inata. É um quê de infância, revivida no cheiro verde da confiança. É a carne da poesia a passear leve pelo dia, ao alcance dos dedos, levando-nos a tatear o que há de belo em nós mesmos.
E, isso, agradeço a ti, mulher; que ainda levo pro outro lado do mar, numa dobra do tempo qualquer.
Na bagagem, sem peso, com certeza, vai junto o que me cativa   na suavidade de teu gesto: a DELICADEZA.

Eliseo Martinez
06.03.2016