Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

91.

Ofício de Professor


No Ocidente, instruir ao provocar mentes, já nasceu como labor de uma cética gente. Os sofistas foram os primeiros dentre todos que se fizeram sendeiros luminosos. Vindos das bordas do mundo grego, dirigiam-se à Atenas, ensinando por onde passavam. Viviam da nova educação dada aos filhos de outros, pois só no saber dos mitos havia sido instruído aquele povo. Seu maior rival, Sócrates, provocador genial, não hesitava em chamá-los às falas por terem desprezado a Verdade e dado preço a suas aulas, negócio nunca antes visto entre os nossos. A maior parte, de rendimento ralo, já penava em seu magistério árduo, mas houve os que se alçaram a pop stars helenos, fascinando com a oratória ricos jovens gregos, para logo após punir com a gramática, estes futuros cidadãos da polis democrática.
Hoje, o professor é refém dos interesses de poucos, que temem mover consciências com a boa educação dos muitos outros, pagando aos que vivem dela, não mais que míseros trocos. Se todo jovem for preparado, com formação e cuidado, conduzido ao limite do que pode, os que se apossaram do poder, a quem servem políticos de todo o tipo, seriam para sempre varridos, ao invés de condenar o professor a perversa condição de trabalho, transformando a escola pública em depósito dos filhos do pobre. A Educação é a prostituta de quem o Estado se vale para reduzir gasto público, tendo, a qualquer pretexto, seus já minguados recursos drenados para outro lado. Pela paga indecente, fica ao mestre proibido a cultura e o estudo, mantido longe do diferente. Mas que não lhe falte ao transporte e a um prato de comida para que não se extinga a dura vida.

Eliseo Martinez
25/11/2016 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

90.

A Banda


Toco numa banda. Ela ensaia afinações, mas engana, passando-se por sinfônica entre latas batidas, apitos, reco-recos, chocalhos, sanfonas. Basta apurar o ouvido, aproximar a poltrona, para perceber a patranha toda. Há muito, os músicos cansaram-se dos instrumentos, das partituras, do soldo pouco e do pequeno público. Toco pífaro e, com certeza, desafino. Tocando de ouvido, a tal banda tem acordes combinados, que não harmonizam com o do pífaro desafinado. Ao maestro faltam, além de ritmo, braços, segurando a batuta com o pé direito, que passa por esquerdo por manter os pés cruzados. Os fiéis batedores de bumbo, sempre voltados para o triste regente, são indiferentes ao som dos diferentes instrumentos. Pouco lhes importa a pouca maestria que, confusa, agita a esmo a varinha maluca. Nutrem sonhos secretos de, algum dia, comandar a banda que engana, alçando-se à fama. Ao redor do coreto da praça, a qualquer pretexto, levanta-se a tenda de eventos. Oba! Ki-suco com melado, pé-de-moleque, refresco.
Agita-se ruidosa, a pracinha, na fanfarra da banda desatinada, a ovacionar-se, ela própria, em meio ao silencioso caos orquestrado da cidade, que com ela não se importa.

Eliseo Martinez
23/11/2016

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

89.

Areté


Uma vez provocados, despertam gênios,
medonhos e empoderados,
libertando potências sublimadas
que habitam os subterrâneos
de gente derramada por todo o lado.
Os daquele velho mestre escola,
avesso a dar as costas a tantos talos novos,
vomitam nos rasos consensos medianos,
alheios ao justo e ao sensato nos humanos,
abominam os pactos atávicos,
no fogo dos medos forjados.
No limite, irascíveis,
negam o que esvazia a alma e anestesia o espírito,
este naco que nos coube do divino.
Batem-se, os tais seres, por fazer do insubmisso
e tosco dono do corpo, senhor da justa vontade,
em que pese os açoites testemunhados
no lombo esquálido da verdade.
Pugnam, as bestas, por algum juízo soberano
na exígua existência carente de justiça, voz e arte,
enfim, vida digna, para que algo valha sua sina.
Que razão melhor que esta,
aos demônios humanos resta,
na busca do sentido do que é vivido,
antes do átimo que, por certo,
antecede o vazio que transborda nada ?

Eliseo Martinez
21/11/2016

terça-feira, 15 de novembro de 2016

88.

A Dança


Uma trupe bufa, apossada de cargos e carente de história que se cite, conspirou contra a Justiça, sem vitória, valendo-se de ardis e trapaças no uso do Direito e da falta de talento de duas tristes figurantes e um pobre bufão das atas. A mim, valeu-me ter ao lado a virtude de um amigo, a sabedoria de uma aguerrida octogenária, calejada de batalhas, e a mente lúcida de jovens corajosos, frente as patentes e as togas, capazes de ler o mundo com os próprios olhos. A valiosa recompensa não foi vencer a mesquinhez do fraco triunvirato mas, dos fortes de caráter, merecer a lealdade. Como prenda da contenda ficou o mel da luta justa que se luta junto. E, por uma dessas fendas do momento, todos presenciaram atentos, quando ocupando o espaço, a majestosa Justiça puxou o servil Direito para o centro do tablado e, por toda a noite, dançaram aos abraços, fazendo o regozijo dos ofendidos, por ora esquecidos que os alegres rodopios findam ao fim da memorável folia para, no alvorecer pardo de um novo-velho dia, a vida voltar a ser mais uma vez corrompida. E, assim, sob a força dos que se valem do mal, gira a roda cega da fortuna, só contida a cada dia, pela virtude dos homens em sua recusa de se curvarem a grande ou miúda tirania, levados a lutar suas lutas.

Eliseo Martinez
14/11/16

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

87.


Plasticidade


A plasticidade cambiante destes tempos inconstantes liquefaz caminhos que nos garantiam segurança, enquanto encobre dilemas que desde sempre atormentam a alma dos homens. Assim é com a culpa, que na falta da medida é banida. A perda drástica da longevidade de nossas teses, reduzida a instantes em metástase, dilui as antes, claras referências do dever ser, fazendo murchar a dimensão moral de nossa existência banal. Num mundo esquecido de mocinhos e bandidos, sou um legítimo apache fake em fim de semana, acampado no estacionamento do parque. Tudo passa a não ser sem, no entanto, deixar de o ser. Conflitos se pulverizam no rastro da dissolução de laços ancestrais. Solidariedade, amizade, compaixão, alteridade, hospitalidade, eram juntos, capazes de dar suporte ao senso do justo, composto no conjunto todo. Afirmar-me não me exigia negar o outro. Concomitantemente ao avanço individualista, que mina o encontro entre o espírito que nas carnes habita, o EU expande-se como uma supernova no limiar do nada que sobra. Sob a alvissareira máscara da pluralidade contemporânea, esconde-se o rosto de ferro da intolerância granulada dos dias mornos da semana. As grandes contendas entre as classes, por certo não se dissiparam feito gases. Resistem mais fortes que nunca, encobertas por camadas mais densas de neon e ideologia, capazes de mais bem ocultar as verdadeiras raízes da economia que definem os interesses dos grandes grupamentos humanos. Como estratégia de sobrevida frente aos crescentes dissabores da vida coletiva, oferta-se elixires, aliviando indivíduos isolados dos intoleráveis grãos de NÃO espalhados. Balcões de reclamação se multiplicam pela cidade. Proliferam ouvidorias de empresas, órgãos públicos, escolas, serviços vários, 0800s, a justiça se recicla e passa a ser restaurativa. Frustrado o resultado dos engodos do mercado, a judicialização do mais minúsculo caso passa a encobrir o esvaziamento do cidadão, preenchido pelo que nos define como meros consumidores, devotos dos "direitos" próprios e esquecidos dos deveres no quadro pragmático da dissolução de valores, falaciosamente justificado pelo paradigma quebrado, dando conta do movimento tornando a consequência causa do momento. Se transgredimos uma norma de trânsito, contamos com os balcões para fazer transitar, da forma mais "cidadã", nossas mais ilegítimas e injustas refutações. Se já decretaram o fim da história, o que voga é a superação da ética, agora. Opera-se a troca da verdade por um arsenal de sofismas e um punhado de meias mentiras. Tempos de liberdade, estes, que me livram do atrito do chão em que piso, me deixando pairar sem asas sobre o abismo. No entanto, como não pensar nos limites do movimento que avança? No horizonte, o tecido feito de homens é dramaticamente descomposto.
Nestes tempos de indiferença, recluso, aqui comigo, penso nos que, em claro delito, se movem para mover um filho, um aluno ou um amigo das sombras do fundo da caverna que os abriga. Pelo chão da história, finda ou não, ficam como evidências, os restos de pele morta da espécie, entre seu gênio e sua demência.

Eliseo Martinez
03/11/2016