A Banda
Toco numa banda. Ela ensaia afinações, mas engana, passando-se por sinfônica entre latas batidas, apitos, reco-recos, chocalhos, sanfonas. Basta apurar o ouvido, aproximar a poltrona, para perceber a patranha toda. Há muito, os músicos cansaram-se dos instrumentos, das partituras, do soldo pouco e do pequeno público. Toco pífaro e, com certeza, desafino. Tocando de ouvido, a tal banda tem acordes combinados, que não harmonizam com o do pífaro desafinado. Ao maestro faltam, além de ritmo, braços, segurando a batuta com o pé direito, que passa por esquerdo por manter os pés cruzados. Os fiéis batedores de bumbo, sempre voltados para o triste regente, são indiferentes ao som dos diferentes instrumentos. Pouco lhes importa a pouca maestria que, confusa, agita a esmo a varinha maluca. Nutrem sonhos secretos de, algum dia, comandar a banda que engana, alçando-se à fama. Ao redor do coreto da praça, a qualquer pretexto, levanta-se a tenda de eventos. Oba! Ki-suco com melado, pé-de-moleque, refresco.
Agita-se ruidosa, a pracinha, na fanfarra da banda desatinada, a ovacionar-se, ela própria, em meio ao silencioso caos orquestrado da cidade, que com ela não se importa.
Eliseo Martinez
23/11/2016
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