Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

87.


Plasticidade


A plasticidade cambiante destes tempos inconstantes liquefaz caminhos que nos garantiam segurança, enquanto encobre dilemas que desde sempre atormentam a alma dos homens. Assim é com a culpa, que na falta da medida é banida. A perda drástica da longevidade de nossas teses, reduzida a instantes em metástase, dilui as antes, claras referências do dever ser, fazendo murchar a dimensão moral de nossa existência banal. Num mundo esquecido de mocinhos e bandidos, sou um legítimo apache fake em fim de semana, acampado no estacionamento do parque. Tudo passa a não ser sem, no entanto, deixar de o ser. Conflitos se pulverizam no rastro da dissolução de laços ancestrais. Solidariedade, amizade, compaixão, alteridade, hospitalidade, eram juntos, capazes de dar suporte ao senso do justo, composto no conjunto todo. Afirmar-me não me exigia negar o outro. Concomitantemente ao avanço individualista, que mina o encontro entre o espírito que nas carnes habita, o EU expande-se como uma supernova no limiar do nada que sobra. Sob a alvissareira máscara da pluralidade contemporânea, esconde-se o rosto de ferro da intolerância granulada dos dias mornos da semana. As grandes contendas entre as classes, por certo não se dissiparam feito gases. Resistem mais fortes que nunca, encobertas por camadas mais densas de neon e ideologia, capazes de mais bem ocultar as verdadeiras raízes da economia que definem os interesses dos grandes grupamentos humanos. Como estratégia de sobrevida frente aos crescentes dissabores da vida coletiva, oferta-se elixires, aliviando indivíduos isolados dos intoleráveis grãos de NÃO espalhados. Balcões de reclamação se multiplicam pela cidade. Proliferam ouvidorias de empresas, órgãos públicos, escolas, serviços vários, 0800s, a justiça se recicla e passa a ser restaurativa. Frustrado o resultado dos engodos do mercado, a judicialização do mais minúsculo caso passa a encobrir o esvaziamento do cidadão, preenchido pelo que nos define como meros consumidores, devotos dos "direitos" próprios e esquecidos dos deveres no quadro pragmático da dissolução de valores, falaciosamente justificado pelo paradigma quebrado, dando conta do movimento tornando a consequência causa do momento. Se transgredimos uma norma de trânsito, contamos com os balcões para fazer transitar, da forma mais "cidadã", nossas mais ilegítimas e injustas refutações. Se já decretaram o fim da história, o que voga é a superação da ética, agora. Opera-se a troca da verdade por um arsenal de sofismas e um punhado de meias mentiras. Tempos de liberdade, estes, que me livram do atrito do chão em que piso, me deixando pairar sem asas sobre o abismo. No entanto, como não pensar nos limites do movimento que avança? No horizonte, o tecido feito de homens é dramaticamente descomposto.
Nestes tempos de indiferença, recluso, aqui comigo, penso nos que, em claro delito, se movem para mover um filho, um aluno ou um amigo das sombras do fundo da caverna que os abriga. Pelo chão da história, finda ou não, ficam como evidências, os restos de pele morta da espécie, entre seu gênio e sua demência.

Eliseo Martinez
03/11/2016

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