Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

96.




Sexo pode ser mais que uma técnica,
pode ser um gesto,
a imaginação que seduz,
seduzida por cada um dos sentidos em festa.

ou

Sexo pode ser mais que técnica,
pode ser gesto em festa,
imaginação seduzida a seduzir
cada um dos sentidos.

Eliseo Martinez
29.12.2016

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

95.

Codinome :  paradoxo


A tragédia e a comédia foram capturadas na síntese do teatro grego mas, por certo, já achavam-se inscritas no genoma dos homens, expondo o gênio incongruente, latente nos humanos. Antes dos helenos, os egípcios anteviram contatos nada imediatos. Deixaram mensagens, aqui mesmo, em nosso espaço terráqueo. Na Pedra de Roseta, reuniram recursos com dois dialetos egípcios e o grego antigo, nos legando códigos que os decifravam em um imaginado vasto mundo sem fundo, para além do tempo em que construíam pirâmides e esfinges, exaltando triunfos.
Boas ideias estão por ai para serem replicadas.
Ritualizamos a chagada do século XXI enviando ao espaço exterior registros da vida humana na Terra, na esperança que sejam descobertos por seres de mundos que rodopiam na luz de outras estrelas.
De fato, somos capazes de generosidade suficiente para lançar sementes bem além do presente. Quando e, se houver a esperada colheita, pelos que plantaram é que ela não será feita. Mas, a consciência, que é própria da espécie, também é pródiga em paradoxos, gentis codinomes de nossa demência.
Se por engenho inato sonhamos vencer o tempo, vislumbrando futuros diálogos extra terráqueos pelos confins do espaço, viramos as costas para o que nos distancia por classes, castas e raças ou, mesmo, nos esquivamos do cumprimento devido ao vizinho de porta.

Eliseo Martinez
26.12.2016 

domingo, 25 de dezembro de 2016

94.



Nestes tempos acelerados,
pedaços de versos inacabados
são deixados por todo o lado.
Convém que o que é bulido,
seja de pronto concluído,
pois "mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades",
como já foi profeticamente dito.
Se Camões sonhasse a exatidão
do presságio em seu verso,
não daria falta do olho
que lhe faltava, por certo.

Eliseo Martinez
25.12.2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

93.

O duplo sentido deixado na Caixa
 (Homenagem à Chape)

A dor que se abateu sobre as províncias do sul do mundo foi sentida por todo o canto do globo azul em luto. Meninos crescidos, na alegria antecipada do aplauso das jogadas, acabaram privados, até mesmo, das vaias da torcida adversária, impedidos a brincar de bola na prometida festa lendária, desimportante para tantos outros em sua luta diária.
No entanto, algo se moveu com a queda do pássaro feito de aço, computadores e plástico. Numa migalha de instante, cristalizada nestes gélidos tempos, onde o coração dos homens arde na ira, seiva fria e medo, falaram mais alto os corpos mudos, despedaçados, que engravidavam o pássaro desafortunado. Da terra calcinada, por tanto veneno nela semeado, vimos surgir, estupefatos, brotos verdes inesperados. Brasileiros, chilenos, africanos, chineses, europeus e, até estadunidenses, somos todos chapecoenses.
O voo despencado do pássaro que jaz quebrado, fez parar a vida por todo o lado. Foi mais que os 71 corpos, das almas, desligados. Lote maior que este, em um punhado de dias, é apartado da vida numa única cidade, que assassina mais que as feridas vivas das guerras zelosamente mantidas.
- O que causou tamanha comoção, não detida pelas fronteiras riscadas no solo ou pela cor da pele dos povos?
- O que, por um átimo, conteve o avanço do tédio e do banal, olhos postos nos destroços do colombiano matagal?
- O que fez com que a solidariedade e a compaixão se levantassem vigorosas, se já agonizam em suas covas?
Quando achamos que o texto está pronto, o vento dos tempos embaralha umas poucas letras e nos provoca a inventar novos sentidos para o escrito todo.
Pode-se afirmar a urgência de lembrar da humanidade esquecida, que deveria estar contida em todo gesto humano na vida. Mas, talvez, o que melhor explique esta hora, seja o que, por fim, restou na caixa de Pandora. O sentimento que abriga seu duplo invertido: a esperança.
A esperança, que nos faz passivamente esperar, agora, pode nos fazer ativamente parar. Parar para pensar, pensar para sentir, sentir para mudar, e mudar para ousarmos ser mais felizes, capazes de dar sentido próprio ao que está ai, impropriamente posto, tatuado em cada rosto.
Esperança nos homens de boa vontade. Esperada mais de ateus que de crentes, confortavelmente resignados à crença desumana em um ente divino, que teima em acabar, antes do tempo previsto, com o jogo dos nossos meninos, lhes cortando os fios da roca do destino.

Eliseo Martinez
04/12/2016 
                                                         

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

92.

O Indivíduo   X   A Tribo


O grupo surge para proteger o indivíduo que o integra, no mais das vezes, tornando-o mais forte do que seria só.
Mais tarde, ao articular interesses dos diferentes coletivos constituídos em seus círculos mais amplos, nasce a grande política, quando esse poder é ampliado.
Antes, o imperativo de convivência entre os partícipes leva a valorização de comportamentos de coesão interna. Se a igualdade é uma quimera, a identidade só emerge enquanto esforço de construção. Esta experiência conjunta sofre a clivagem de micro poderes ditados, tanto por ações de preservação coletiva, quanto por atitudes de sobrevivência individual dentro dela, na acomodação de contradições, por vezes mesmo, intoleráveis, no âmbito da pequena política.
O que se formou de modo mais aberto e receptivo, na fase de aglutinação, tende, agora, a se fechar gradativamente, em sua consolidação. Tem lugar o garrote que subjaz ao movimento da manada, mantendo-a unida; o malabarismo que se estabelece entre o eu e todos os demais, regulado por doses diversas de expressão da vontade livre e subserviência a formação de consensos, que costuma ser inversamente proporcional ao quinhão de poder auferido pelo indivíduo dentro do grupo.
Com o tempo, inevitavelmente, despontam conflitos, alguns deles de difícil solução. A crítica independente tende, cada vez mais, a ser recebida como desestabilizadora, uma agressão não apenas ao grupo, mas a seus integrantes individualmente, que passam a agir cegamente na defesa da perpetuação daquela comunidade, minando a superação de antagonismos fundamentados nas diferentes percepções internas em disputa, mesmo que, anteriormente, já tenham cumpriram papel importante no desenvolvimento e fortalecimento comunal. Galvaniza-se a figura do chefe, personificação da função protetora representada por aquela associação de pessoas. Abre-se espaço a comportamentos de atalho, de caráter individualistas, comumente ardilosos, tais como os de bajulação, intriga e todo o tipo de má-fé, podendo cacifar as fichas de partícipes enfraquecidos, postulantes a se firmarem ou ascender na estrutura de poder grupal. Além disso, a necessidade de coesão passa a servir-se mais sistematicamente dos instrumentos de coerção. Fortalece-se a supremacia e ditadura do consenso. Mapeiam-se atitudes desviantes, entendidas como potencialmente perigosas. Assim, passam a ser marcados os que se movimentam próximos as fronteiras, distantes do centro de gravidade das posições majoritárias do coletivo, ora em crescente alerta. Como na tensão superficial que mantém coesa a gota d'água, a tribo desenvolve a necessidade de constituir o inimigo para sua união, redefinindo os limites, as texturas e as cores do espaço social.
Se a crítica intra-grupo não se dispõe ao paciencioso trabalho de articulação na tentativa de  consolidar o direito de tendência interna, cedo ou tarde, remeterá o crítico outsider a condição de isolamento e sua possível exclusão do grupo, restando-lhe duas alternativas, conscientemente ou não percebidas por ele. A primeira, é a sublimação crítica na busca da reaceitação, ditada pelas mais diversas motivações, destacando-se as necessidades impostas pelo sentimento de pertencimento; a segunda, é o aprofundamento da crítica dirigida ao coletivo e/ou as suas lideranças, acirrando antagonismos com a reorientação do próprio coletivo ou, no caso de insucesso da ação, frente ao recrudescimento do grupo, a exclusão definitiva do indivíduo rebelde, ai, já parcialmente imunizado contra os cruéis efeitos deletérios da morte social, principalmente quando o desviante se submeteu passivamente ao processo de "purificação".
Desta forma, para afirmação da dimensão existencial do sujeito excluído, faz-se necessária a superação do controle social na mente do crítico quando, para além da dissolução dos laços objetivos, desfazem-se os laços simbólicos que legitimavam as formas de interação previamente estabelecidas entre o sujeito e todos os demais. Contexto particularmente interessante no caso da continuidade do compartilhamento do espaço, o que inevitavelmente remete a condições propícias à desobediência  civil, abrindo trincas na hegemonia do poder instituído.
A responsabilidade de tais escolhas, uma vez transitada toda a angústia daí decorrente, vai definir a qualidade da liberdade e a reconfiguração daquela identidade singular que se mobiliza. É quando a ideia de projeto de si pode recolocar a função estabilizadora do tempo futuro, transcendendo a instabilidade cambiante do tempo presente. 
Na concepção de Nietzsche, é só na ousadia do ato maior de transvalorizar os valores estabelecidos que emerge a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos.

Eliseo Martinez
02/12/2016