Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

93.

O duplo sentido deixado na Caixa
 (Homenagem à Chape)

A dor que se abateu sobre as províncias do sul do mundo foi sentida por todo o canto do globo azul em luto. Meninos crescidos, na alegria antecipada do aplauso das jogadas, acabaram privados, até mesmo, das vaias da torcida adversária, impedidos a brincar de bola na prometida festa lendária, desimportante para tantos outros em sua luta diária.
No entanto, algo se moveu com a queda do pássaro feito de aço, computadores e plástico. Numa migalha de instante, cristalizada nestes gélidos tempos, onde o coração dos homens arde na ira, seiva fria e medo, falaram mais alto os corpos mudos, despedaçados, que engravidavam o pássaro desafortunado. Da terra calcinada, por tanto veneno nela semeado, vimos surgir, estupefatos, brotos verdes inesperados. Brasileiros, chilenos, africanos, chineses, europeus e, até estadunidenses, somos todos chapecoenses.
O voo despencado do pássaro que jaz quebrado, fez parar a vida por todo o lado. Foi mais que os 71 corpos, das almas, desligados. Lote maior que este, em um punhado de dias, é apartado da vida numa única cidade, que assassina mais que as feridas vivas das guerras zelosamente mantidas.
- O que causou tamanha comoção, não detida pelas fronteiras riscadas no solo ou pela cor da pele dos povos?
- O que, por um átimo, conteve o avanço do tédio e do banal, olhos postos nos destroços do colombiano matagal?
- O que fez com que a solidariedade e a compaixão se levantassem vigorosas, se já agonizam em suas covas?
Quando achamos que o texto está pronto, o vento dos tempos embaralha umas poucas letras e nos provoca a inventar novos sentidos para o escrito todo.
Pode-se afirmar a urgência de lembrar da humanidade esquecida, que deveria estar contida em todo gesto humano na vida. Mas, talvez, o que melhor explique esta hora, seja o que, por fim, restou na caixa de Pandora. O sentimento que abriga seu duplo invertido: a esperança.
A esperança, que nos faz passivamente esperar, agora, pode nos fazer ativamente parar. Parar para pensar, pensar para sentir, sentir para mudar, e mudar para ousarmos ser mais felizes, capazes de dar sentido próprio ao que está ai, impropriamente posto, tatuado em cada rosto.
Esperança nos homens de boa vontade. Esperada mais de ateus que de crentes, confortavelmente resignados à crença desumana em um ente divino, que teima em acabar, antes do tempo previsto, com o jogo dos nossos meninos, lhes cortando os fios da roca do destino.

Eliseo Martinez
04/12/2016 
                                                         

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