Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

92.

O Indivíduo   X   A Tribo


O grupo surge para proteger o indivíduo que o integra, no mais das vezes, tornando-o mais forte do que seria só.
Mais tarde, ao articular interesses dos diferentes coletivos constituídos em seus círculos mais amplos, nasce a grande política, quando esse poder é ampliado.
Antes, o imperativo de convivência entre os partícipes leva a valorização de comportamentos de coesão interna. Se a igualdade é uma quimera, a identidade só emerge enquanto esforço de construção. Esta experiência conjunta sofre a clivagem de micro poderes ditados, tanto por ações de preservação coletiva, quanto por atitudes de sobrevivência individual dentro dela, na acomodação de contradições, por vezes mesmo, intoleráveis, no âmbito da pequena política.
O que se formou de modo mais aberto e receptivo, na fase de aglutinação, tende, agora, a se fechar gradativamente, em sua consolidação. Tem lugar o garrote que subjaz ao movimento da manada, mantendo-a unida; o malabarismo que se estabelece entre o eu e todos os demais, regulado por doses diversas de expressão da vontade livre e subserviência a formação de consensos, que costuma ser inversamente proporcional ao quinhão de poder auferido pelo indivíduo dentro do grupo.
Com o tempo, inevitavelmente, despontam conflitos, alguns deles de difícil solução. A crítica independente tende, cada vez mais, a ser recebida como desestabilizadora, uma agressão não apenas ao grupo, mas a seus integrantes individualmente, que passam a agir cegamente na defesa da perpetuação daquela comunidade, minando a superação de antagonismos fundamentados nas diferentes percepções internas em disputa, mesmo que, anteriormente, já tenham cumpriram papel importante no desenvolvimento e fortalecimento comunal. Galvaniza-se a figura do chefe, personificação da função protetora representada por aquela associação de pessoas. Abre-se espaço a comportamentos de atalho, de caráter individualistas, comumente ardilosos, tais como os de bajulação, intriga e todo o tipo de má-fé, podendo cacifar as fichas de partícipes enfraquecidos, postulantes a se firmarem ou ascender na estrutura de poder grupal. Além disso, a necessidade de coesão passa a servir-se mais sistematicamente dos instrumentos de coerção. Fortalece-se a supremacia e ditadura do consenso. Mapeiam-se atitudes desviantes, entendidas como potencialmente perigosas. Assim, passam a ser marcados os que se movimentam próximos as fronteiras, distantes do centro de gravidade das posições majoritárias do coletivo, ora em crescente alerta. Como na tensão superficial que mantém coesa a gota d'água, a tribo desenvolve a necessidade de constituir o inimigo para sua união, redefinindo os limites, as texturas e as cores do espaço social.
Se a crítica intra-grupo não se dispõe ao paciencioso trabalho de articulação na tentativa de  consolidar o direito de tendência interna, cedo ou tarde, remeterá o crítico outsider a condição de isolamento e sua possível exclusão do grupo, restando-lhe duas alternativas, conscientemente ou não percebidas por ele. A primeira, é a sublimação crítica na busca da reaceitação, ditada pelas mais diversas motivações, destacando-se as necessidades impostas pelo sentimento de pertencimento; a segunda, é o aprofundamento da crítica dirigida ao coletivo e/ou as suas lideranças, acirrando antagonismos com a reorientação do próprio coletivo ou, no caso de insucesso da ação, frente ao recrudescimento do grupo, a exclusão definitiva do indivíduo rebelde, ai, já parcialmente imunizado contra os cruéis efeitos deletérios da morte social, principalmente quando o desviante se submeteu passivamente ao processo de "purificação".
Desta forma, para afirmação da dimensão existencial do sujeito excluído, faz-se necessária a superação do controle social na mente do crítico quando, para além da dissolução dos laços objetivos, desfazem-se os laços simbólicos que legitimavam as formas de interação previamente estabelecidas entre o sujeito e todos os demais. Contexto particularmente interessante no caso da continuidade do compartilhamento do espaço, o que inevitavelmente remete a condições propícias à desobediência  civil, abrindo trincas na hegemonia do poder instituído.
A responsabilidade de tais escolhas, uma vez transitada toda a angústia daí decorrente, vai definir a qualidade da liberdade e a reconfiguração daquela identidade singular que se mobiliza. É quando a ideia de projeto de si pode recolocar a função estabilizadora do tempo futuro, transcendendo a instabilidade cambiante do tempo presente. 
Na concepção de Nietzsche, é só na ousadia do ato maior de transvalorizar os valores estabelecidos que emerge a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos.

Eliseo Martinez
02/12/2016

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