Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

101.

Rebelde


Às vezes, com graça; outras, no escracho,
desencaixo do povo dos homens e me acho.
Fazem-se evidentes as evidências, quando...
Vasculhando fundos de olhos que me olham,
medindo o que sai de bocas que me falam;
Entornando copos, lambendo pratos,
grato pelo prazer aos nacos;
Saudando as manhãs com o som de um flatos,
antevendo a fuligem dos dias que nos enxuga a alegria;
Enriquecendo a língua culta com a palavra obscena e crua,
que desperta a quem escuta;
Empilhando porções da tilápia, tal qual bardo, no Matraca,
sob o desconcerto de comensais apressados;
Desobrigando-me a economia de um único amor ao lado
ou, ainda,
Recusando cumprimento
a quem não se dá ao devido respeito,
adestrado em simulacros ofertados no cardápio.
Negociamos os sorrisos que inventamos,
assim como, livres, os abandonamos.
Cronista de mim mesmo,
do entorno e do tempo em que me vejo,
despido de amarguras e rancores,
percebo, agora, no adiantado da hora,
que me foi natural inocular o grão de cada coisa
com o gene dual de coisa outra.
Nem bom, tampouco mal;
apenas um modo oblíquo de olhar.
Uma bendita maldição,
à toda,
na contramão...

Eliseo Martinez
24.01.2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

100.

Ecos


Quando crescer ainda viro maldito e,
no giro de um salto triplo,
pego caneta, em armas ou palheta.
Punho esquerdo fechado pro alto,
entre muitos, irado arauto,
articulo a luta, artes, amores,
a resgatar a História
no credo reto da vitória.
Por hora, faltam sujeitos
e abundam sujeitados por todo lado.
Também eu, nada mais sou
que insólitos vestígios tecidos na memória
e o grão sólido do contraditório.
Se já sonhei rupturas, hoje,
menos crente nos homens,
me agradam os pequenos gestos,
feito biscuits de afeto.
Esmaecidos brados, bandeiras, lemas,
das paixões restaram cacos de dilemas
e o inaudível sussurro do insubmisso NÃO
sob as lentes de um perplexo Lenin
instalado no alto do balcão.
Por vezes, no silêncio da noite,
olhos abertos, presos a pregos no teto,
desperto ao som daqueles futuros ecos...

Eliseo Martinez
23.01.2017

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

99.

Como dentes de um tridente


Me fiz pêndulo entre o brilho dourado do trigo
e o fosco do mármore, de branco tingido,
trançado a corpos, palavras, espasmos, olhares aflitos.
Num plural de nós reunidos
à redimir o tempo lento de liberdades punidas,
somos o que somos:
um emaranhado de sensatas razões e lascivas paixões,
à deriva de instantes e vontades e miragens.
Em tal curso, singro córregos, antes apartados,
que se fazem mares;
para correr em um só leito,
a desaguar no estuário do meu peito.
Que convergem, se misturam,
como os dentes de um tridente.
- Tri-dente? Matemática esquisita dessa gente indecente!

Eliseo Martinez
15.01.2017
98.



Corpos são pomares replantados
na mente dos amantes
que, sob sóis de desejo,
se abandonam pelas cunas desfeitas.
Melões, pêssegos, romãs, cerejas...
flores ocultas em brotos de laranjeiras.
Cachos de uva derramados, represados
no regaço dos pelos,
no apelo de olhos, lábios e mãos nuas,
úmidos de seiva crua.
Contornos a serem preenchidos
pela carne macia das frutas maduras,
tingidas de magenta e ácida doçura
a desatar o instinto contido dos sentidos,
que saem em desatino para só apaziguar
em seus destinos.

Eliseo Martinez
16.01.2016

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

97.

Razões Inumanas


Ao longo de nossa trajetória, desde antes da raça ter o que, mais tarde, foi chamado de História, produzimos ideias que, ao acaso, se materializam reificadas, assumindo vida própria.
Essas são as razões inumanas, que passam a conduzir como próceres, seres reais, feitos de carne, nervos e ossos.
. MITOS são criações dessa ordem. Geram realidades insólitas, no entanto, comandam as gentes por todo o canto, nutrindo credos e religiões, mais tarde, alçados a seus guardiões.
. Outra criatura emancipada do criador humano, agora, fecundada em leito econômico, é cria de apetites vorazes, só parcialmente controlada. Entra em cena o onipotente MERCADO. Coração e anus do sistema que, alimentado ou alimentando-se por conta própria, troca à troca, se alastra planeta afora, até a menor e mais distantes de suas tocas. Mago da fortuna de uns poucos e da miséria de tantos outros, acabou por dominar a existência dos homens e seu ócio, mal percebida as proporções globais do rentável negócio. É reverenciado, quer pela ganância dos que dele se saciam, quer pela ignorância dos que com suor e sangue o financiam; ou é odiado, pelos que tomaram consciência da cruel autonomia com que a astúcia da razão inumana, estende seu domínio sobre o mais desgarrado dos seres humanos.
. Gestada por mentes naturalmente inteligentes, inteligências artificiais ampliam a mente dos mortais, quando não substituem os que desdenharam as preleções da própria ficção. Velhos titãs da produção, deram lugar a gerações de COMPUTADORES que, ao fim e ao cabo, pelo condão da criação foram tocados. Forças criativas, jamais vistas, são liberadas, associando informações com velocidade e precisão. Tempo e espaço são, agora, num ecrã, compactados. O homem, enquanto indivíduo isolado, obsoleto, passa a ser posto de lado, frente aos novos seres que, bite a bite, se retroalimentam de complexas combinações lógicas.
Já não parecem tão despropositadas as formulações de Engels, posteriormente, por ele mesmo refutadas, sobre uma dialética da natureza (natureza, aqui, entendida como todo o existente que se diferencia de uma de suas partes específicas, o ser humano).
Se a História é o fenômeno do movimento dos homens no espaço-tempo, ela terá sua mais dramática ruptura definida por causas ambientais, bacteriológicas, físico-atômicas, geológicas ou, quem sabe, astronômicas, a afetar o globo-mundo, do topo do mais alto de seus cumes a seu abismo mais profundo. A proliferação dos dados computados imporá um novo olhar ao olharmos para o cosmos, então, desmitificado, visto como a possibilidade que resta a humanidade.
Frente aos contratempos, teremos tempo para nos semear pelo espaço antes da anunciada, mas ignorada catástrofe ?
Chegada a hora, a escolha das sementes imporá barbárie jamais antevista em nossos mais sombrios pesadelos, com a civilização no seu mais alto grau de desenvolvimento humano e tecnológico, uma escolha brutal terá de ser feita. Para os que ficam, o temido apocalipse; aos escolhidos, que partem, drásticas mudanças e a tênue esperança de perpetuação da espécie, a um só tempo, a mais sublime e letal, que já habitou este futuro tórrido quintal.

Eliseo Martinez
04.01.2016