O tuaregue e a codorninha
Num oásis distante da costa,
sem casbá ou minarete
que se mostre à vista nossa,
um velho tuaregue desgarrado
da caravana lenta,
indo de Timbuktu à Marraquexe,
a ruminar tâmaras com chá de menta,
metido num talgemust de índigo azulado,
afirma ter avistado pelas areias do deserto,
uma codorninha de penas azeitona-açafrão,
longe do ninho, maldizendo cada grão
de cada duna do caminho,
chacoalhando na corcova de um dromedário
listrado de amarelo e castanho dourado,
com rabo em tons de caramelo queimado.
Como já não se fazem velas para caravelas
e, tampouco, existam asas de bicho
que sobrevoem tanta água,
só não sabe o berbere do Saara,
que a codorninha ainda alça voo preste lado,
trazida por pássaro de alumínio e aço,
sangue de querosene e fôlego de jato.
Eliseo Martinez
23.02.2018
