Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

177.



O tuaregue e a codorninha


Num oásis distante da costa,
sem casbá ou minarete
que se mostre à vista nossa,
um velho tuaregue desgarrado
da caravana lenta,
indo de Timbuktu à Marraquexe,
a ruminar tâmaras com chá de menta,
metido num talgemust de índigo azulado,
afirma ter avistado pelas areias do deserto,
uma codorninha de penas azeitona-açafrão,
longe do ninho, maldizendo cada grão
de cada duna do caminho,
chacoalhando na corcova de um dromedário
listrado de amarelo e castanho dourado,
com rabo em tons de caramelo queimado.
Como já não se fazem velas para caravelas
e, tampouco, existam asas de bicho
que sobrevoem tanta água,
só não sabe o berbere do Saara,
que a codorninha ainda alça voo preste lado,
trazida por pássaro de alumínio e aço,
sangue de querosene e fôlego de jato.


Eliseo Martinez
23.02.2018

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

176.

Da vontade


No solo fértil das inquietudes
germina quase tudo
o que move homens,
que os confirma e ilude:
seus desejos mais loucos
e o desengano das vontades
calcinadas aos poucos.
De mal menor ou bem maior
fez-se o húmus que fecunda
lótus pelo brejo todo?
Se esse buliço interior,
causa tamanha de êxtase e dor,
é enfermidade ou remédio,
que digam, lá, os que padecem
dos males da vontade,
abatidos por melancolia ou tédio,
habituados com a morte perto.

Eliseo Martinez
12.02.2018

domingo, 11 de fevereiro de 2018

175.

Indivíduo e sociedade


A paz possível,
que dê conta de harmonizar
a própria alma,
precede os tácitos acordos
com as almas em torno,
fazendo com que o Inferno,
que não é mais que os outros,
se torne o suportável Purgatório
dos homens,
mantidos à segura distância,
para que apenas
os unam sonhos e esperança.

Eliseo Martinez
11.02.2018

sábado, 10 de fevereiro de 2018

174.

Pós-românticos


Se andam em falta os inteiros,
fazer o quê?
Junta-se os meios,
compondo um todo novo
feito dos partidos, que somos,
na recusa da solidão a dois como outros.
De nada adianta sumir do mapa,
rasgar fotos e cartas,
apagar os diálogos e as marcas
que ficaram pela casa,
tentando esquecer o que não se encaixou
na moldura presa à parede
bem antes de cada inesperada chegada.
Não basta ser fiel a coxos afetos
ou a um único alguém que não convém,
quando perto, negando inquietudes
que, à revelia de lei ou clã, se mantém.
O jeito é dar-se por contente,
libertos de roteiros e arquétipos,
que só nos livros e telas deram certo,
e sair a pulsar acostado
pelas veias abertas da cidade
fazendo pouco caso da noz oca
de uma certa forma de felicidade.

Eliseo Martinez
10.02.2018

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

173.



Reconhecer quando ceder a nós mesmos
é parte de um intrincado segredo
a ser desvendado ao reescrever nossos enredos,
menos trágicos, menos enevoados de medos.
Há os que tem de ter a vida instigada,
contraveneno pra apatia, tédio ou covardia.
Para outros, mais escassos,
ela só precisa ser domada
por conta de inquietudes,
buscas, loucura ou fúria.
Vida, há em quase tudo.
Vida que valha é uma vontade arranjada
entre longitudes e latitudes,
poder divisar algum norte,
além de topar com boa dose de sorte.

Eliseo Martinez
09.02.2018

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

172.

Céu de menino

Qualquer dia me vou daqui só pra deitar em praia ou prado
sob um céu estrelado, que já não se vê destes lados.
Levado pelo rastro da via láctea, onde nasce a beleza,
a pairar sobre a cabeça, como no meu céu de menino,
tomado de espanto pela extraviada pureza.
Onde andam a riscar as estrelas
que via cruzar a imensidão das noites?
Por certo, estão por lá, no mesmo lugar,
por trás dos faróis e fuligem com que empestamos o ar.
Quero voltar a ser testemunha ocular
do que se vai para além do horizonte da Terra,
esvaída, que está, de poesia e mistérios,
antes que suma o resto todo que circunda a esfera.
Tão conveniente só ter um firmamento
borrado pra contemplar, sem os infinitos
pontinhos iluminados que façam pensar.
Já notaram que imaginamos cada vez menos?
Que andamos sonhando pequeno?
Já não olhamos para o alto,
ocupados com constelações de desejos falsos,
que só fazem ampliar o vazio que nos vem dentro,
em constante sobressalto.
Como ficou mais difícil se pôr a cismar,
quando o que cintilava nas noites, nos fazendo espantar,
parece que já não está lá.

Eliseo Martinez
08.02.2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

171.


Fuga


De um canto do lago Hampel,
nos campos de cima da serra,
ateu e ímpia penitente
se veem estirados na relva
sob as bênçãos sagradas
de um bendito feriado.
Folhas deitadas ao chão,
agora, são palavras de tinta
em páginas folhadas por mãos.
Santos e pecadores auto exilados
nesta estação de Pasárgada,
sem culpas ou perdão.
Apenas vivem a recusa
de negar o que são.
Nenúfares se abrem à pele d'água,
sob a luz da manhã calma.
O dia respira livre dentro
de uma bolha infinita de harmonia.
Quem disse que o tempo não para
talvez não tenha parado
para vê-lo num momento, eternizado.
No bosque, em volta, aves sobrevoam
centenárias araucárias, pinheiros,
ciprestes, aroeiras bravas.
Na tarde que se vai com o sol,
ao alto das copas, já se ergue a lua,
revelando o que se oculta 
nas duas almas nuas.
Corujas e sapos-martelo sobressaem
no rumoroso mar de vida
entre o breu da mata que os abriga.
Aos humanos, o mundo retrocede
a uma era apaziguada, só rajada
pelos resquícios de ancestrais temores,
despertos pela escuridão e seus rumores,
sob mil olhos que olham curiosos
o par de intrusos, apartado da tribo
e, enfim, liberto de seus bizarros pudores.  

Eliseo Martinez
02.02.2018