Fuga
De um canto do lago Hampel,
nos campos de cima da serra,
ateu e ímpia penitente
se veem estirados na relva
sob as bênçãos sagradas
de um bendito feriado.
Folhas deitadas ao chão,
agora, são palavras de tinta
em páginas folhadas por mãos.
Santos e pecadores auto exilados
nesta estação de Pasárgada,
sem culpas ou perdão.
Apenas vivem a recusa
de negar o que são.
Nenúfares se abrem à pele d'água,
sob a luz da manhã calma.
O dia respira livre dentro
de uma bolha infinita de harmonia.
Quem disse que o tempo não para
talvez não tenha parado
para vê-lo num momento, eternizado.
No bosque, em volta, aves sobrevoam
centenárias araucárias, pinheiros,
ciprestes, aroeiras bravas.
Na tarde que se vai com o sol,
ao alto das copas, já se ergue a lua,
revelando o que se oculta
nas duas almas nuas.
Corujas e sapos-martelo sobressaem
no rumoroso mar de vida
entre o breu da mata que os abriga.
Aos humanos, o mundo retrocede
a uma era apaziguada, só rajada
pelos resquícios de ancestrais temores,
despertos pela escuridão e seus rumores,
sob mil olhos que olham curiosos
o par de intrusos, apartado da tribo
e, enfim, liberto de seus bizarros pudores.
Eliseo Martinez
02.02.2018
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