172.
Céu de menino
Qualquer dia me vou daqui só pra deitar em praia ou prado
sob um céu estrelado, que já não se vê destes lados.
Levado pelo rastro da via láctea, onde nasce a beleza,
a pairar sobre a cabeça, como no meu céu de menino,
tomado de espanto pela extraviada pureza.
Onde andam a riscar as estrelas
que via cruzar a imensidão das noites?
Por certo, estão por lá, no mesmo lugar,
por trás dos faróis e fuligem com que empestamos o ar.
Quero voltar a ser testemunha ocular
do que se vai para além do horizonte da Terra,
esvaída, que está, de poesia e mistérios,
antes que suma o resto todo que circunda a esfera.
Tão conveniente só ter um firmamento
borrado pra contemplar, sem os infinitos
pontinhos iluminados que façam pensar.
Já notaram que imaginamos cada vez menos?
Que andamos sonhando pequeno?
Já não olhamos para o alto,
ocupados com constelações de desejos falsos,
que só fazem ampliar o vazio que nos vem dentro,
em constante sobressalto.
Como ficou mais difícil se pôr a cismar,
quando o que cintilava nas noites, nos fazendo espantar,
parece que já não está lá.
Eliseo Martinez
08.02.2018
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