Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 20 de maio de 2018

194.

O que somos nós?


Antes de tudo, somos afeto.
Isso é mais que certo.
Contudo, pares improváveis,
somos, também, vontade.
Nem bem à terra firme,
tão pouco ao mar revolto,
somos o jogo das marés e as ondas
que, sem mais, às margens tombam.
Por vezes, amanhecemos juntos.
É quando as águas se encontram
e, entre redemoinhos, dançam.
Em outras, sem o calor do outro,
dividimos, vezes sem conta, o leito
com quem nos dê alento ao peito.
E, como opostos perfeitos,
por luas novas, luas cheias,
seguimos a enfeitiçar o tempo
sob açoite de granizo e ventos.
Imbatível ao timão, a teimosia
traça cursos impossíveis
em meio a tormentas e calmarias.
E o que mais somos nós,
além deste estranho gostar?
Como numa manhã de verão,
em que o sol irrompe e inunda o dia
descortinando-se clara à visão,
entre as gentes ou recolhidos
ao íntimo eremitério de nós dois,
somos sina, somos o que somos,
somos mistério que ficou sem solução.

Eliseo Martinez
20.05.2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

193.

A ordem do Caos


Das bocas escancaradas de falésias, desfiladeiros,
fendas e precipícios, o fétido hálito do impiedoso ser
que gerou kronidas, se espalha desde o fundo
semeando crises pelos confins do mundo.
Do ventre da Terra, com apetites restaurados
e ancestrais códigos de vingança preservados,
o gênio insano de Kronos,
em seu trabalho por milhares de anos,
faz, enfim, voltar a tremer vales, planícies e montanhas, transborda mares e oceanos.
Senhor e sicários, seus ciosos vassalos,
Titãs, Ciclopes, Hecatônquiros, para muitos imaginários,
em cada canto, por todo o lado
se amotinam em ruidosa fuga do submundo,
mais tarde, os vastos domínios de Hades,
encravado no Tártaro, ainda mais profundo,
rasgando entranhas tomadas pelas cólicas de Gaya,
exaurida de recursos, agora, sem aliados que valham.
O de olhar curvo, que não hesitou castrar o pai,
celestial Urano, tão pouco, engolir vivos filhos seus,
se faz anunciar, prenunciando o retorno do reinado
de sombras, fúria e medo, quando, intempestivo,
a golpes de cólera e foice, fundou o tempo,
aclamado que foi, em régia pompa, pelo feito.
Medonho e magnífico é Kronos, desde o início,
o mais temido dentre os velhos deuses todos.
Os ciclos se sucedem irrigados pelas águas do passado
e, nesta ronda, a roda do Tempo impõe
a desordem de Caos à ordem da Terra,
sem misericórdia ou justa trégua.
Nas bordas do que se passa, divindades do Olimpo,
caídos em desgraça, mais tementes que temidos
de ameaças, mexericam sobre o destino dos homens.
Cogitam que não restará grão de luz que,
por teimosia inata, venha a se refugiar em sonho humano
ou resquício da frágil raça.

Eliseo Martinez
15.05.2018

quarta-feira, 2 de maio de 2018

192.

O Concerto


Com todo o mal que há em volta,
mesmo brutos desenrijecem
ante a harmonia de velhos mestres,
tornando bestas, humanos novamente,
por menos humanidade que lhes reste.
Imagine. Apenas imagine,
num devaneio niilista, em fim de tarde,
se fosse possível tirar férias da maldade,
gozando de uma pequena porção
do bem de que são os homens capazes.
Num primeiro movimento, um a um, isolados,
ensaiando ruídos desencontrados.
Depois, todos juntos, reunidos em naipes
de cordas, percussão, madeiras, metais,
e o bater compassado de palmas
dos sem outros meios musicais.
Se aproximando, desde longe,
baixos e contraltos, barítonos e sopranos.
Cada uma das vozes, desafinadas, que sejam,
se fazendo ouvir sem mediação de poderes.
A música crescendo e se espalhando pelos ares,
levando paz aos corações, por todos os lugares.
Notas partilhadas no som nosso de cada dia,
alimentando famintos com os acordes da sinfonia.
De tão livres, nos bastaríamos,
sem ter de inventar divindades
na promessa de sua ausente companhia.
Um réquiem aos deuses, celebraria
a troca de velhos por novos mitos,
já que é de fantasias que tratam seus ditos.
Sem imaculadas mães, ainda virgens,
filhos que levantam Lázaros,
peixes e pães multiplicados,
paraísos esterilizados de poesia,
rituais sagrados ou demoníacos.
A história a ser contada, doravante,
nos falaria do inesquecível concerto
dos que amam, pensam e sonham,
sem o temor de apenas serem homens,
reescrita nas pautas da inédita partitura,
na recusa de se abandonarem às amarguras.

Eliseo Martinez
02.05.2018