192.
O Concerto
Com todo o mal que há em volta,
mesmo brutos desenrijecem
ante a harmonia de velhos mestres,
tornando bestas, humanos novamente,
por menos humanidade que lhes reste.
por menos humanidade que lhes reste.
Imagine. Apenas imagine,
num devaneio niilista, em fim de tarde,
se fosse possível tirar férias da maldade,
gozando de uma pequena porção
do bem de que são os homens capazes.
Num primeiro movimento, um a um, isolados,
ensaiando ruídos desencontrados.
ensaiando ruídos desencontrados.
Depois, todos juntos, reunidos em naipes
de cordas, percussão, madeiras, metais,
e o bater compassado de palmas
dos sem outros meios musicais.
dos sem outros meios musicais.
Se aproximando, desde longe,
baixos e contraltos, barítonos e sopranos.
Cada uma das vozes, desafinadas, que sejam,
se fazendo ouvir sem mediação de poderes.
se fazendo ouvir sem mediação de poderes.
A música crescendo e se espalhando pelos ares,
levando paz aos corações, por todos os lugares.
Notas partilhadas no som nosso de cada dia,
alimentando famintos com os acordes da sinfonia.
De tão livres, nos bastaríamos,
sem ter de inventar divindades
na promessa de sua ausente companhia.
Um réquiem aos deuses, celebraria
a troca de velhos por novos mitos,
já que é de fantasias que tratam seus ditos.
já que é de fantasias que tratam seus ditos.
Sem imaculadas mães, ainda virgens,
filhos que levantam Lázaros,
peixes e pães multiplicados,
paraísos esterilizados de poesia,
rituais sagrados ou demoníacos.
A história a ser contada, doravante,
nos falaria do inesquecível concerto
dos que amam, pensam e sonham,
dos que amam, pensam e sonham,
sem o temor de apenas serem homens,
reescrita nas pautas da inédita partitura,
na recusa de se abandonarem às amarguras.
Eliseo Martinez
Eliseo Martinez
02.05.2018
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