194.
O que somos nós?
Antes de tudo, somos afeto.
Isso é mais que certo.
Contudo, pares improváveis,
somos, também, vontade.
Nem bem à terra firme,
tão pouco ao mar revolto,
somos o jogo das marés e as ondas
que, sem mais, às margens tombam.
Por vezes, amanhecemos juntos.
É quando as águas se encontram
e, entre redemoinhos, dançam.
Em outras, sem o calor do outro,
dividimos, vezes sem conta, o leito
com quem nos dê alento ao peito.
E, como opostos perfeitos,
por luas novas, luas cheias,
seguimos a enfeitiçar o tempo
sob açoite de granizo e ventos.
Imbatível ao timão, a teimosia
traça cursos impossíveis
em meio a tormentas e calmarias.
E o que mais somos nós,
além deste estranho gostar?
Como numa manhã de verão,
em que o sol irrompe e inunda o dia
descortinando-se clara à visão,
entre as gentes ou recolhidos
ao íntimo eremitério de nós dois,
somos sina, somos o que somos,
somos mistério que ficou sem solução.
Eliseo Martinez
20.05.2018
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