A ordem do Caos
Das bocas escancaradas de falésias, desfiladeiros,
fendas e precipícios, o fétido hálito do impiedoso ser
que gerou kronidas, se espalha desde o fundo
semeando crises pelos confins do mundo.
Do ventre da Terra, com apetites restaurados
e ancestrais códigos de vingança preservados,
o gênio insano de Kronos,
em seu trabalho por milhares de anos,
faz, enfim, voltar a tremer vales, planícies e montanhas, transborda mares e oceanos.
Senhor e sicários, seus ciosos vassalos,
Titãs, Ciclopes, Hecatônquiros, para muitos imaginários,
em cada canto, por todo o lado
se amotinam em ruidosa fuga do submundo,
mais tarde, os vastos domínios de Hades,
encravado no Tártaro, ainda mais profundo,
rasgando entranhas tomadas pelas cólicas de Gaya,
exaurida de recursos, agora, sem aliados que valham.
O de olhar curvo, que não hesitou castrar o pai,
celestial Urano, tão pouco, engolir vivos filhos seus,
se faz anunciar, prenunciando o retorno do reinado
de sombras, fúria e medo, quando, intempestivo,
a golpes de cólera e foice, fundou o tempo,
aclamado que foi, em régia pompa, pelo feito.
Medonho e magnífico é Kronos, desde o início,
o mais temido dentre os velhos deuses todos.
Os ciclos se sucedem irrigados pelas águas do passado
e, nesta ronda, a roda do Tempo impõe
a desordem de Caos à ordem da Terra,
sem misericórdia ou justa trégua.
Nas bordas do que se passa, divindades do Olimpo,
caídos em desgraça, mais tementes que temidos
de ameaças, mexericam sobre o destino dos homens.
Cogitam que não restará grão de luz que,
por teimosia inata, venha a se refugiar em sonho humano
ou resquício da frágil raça.
Eliseo Martinez
15.05.2018
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