Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

222.

Raízes

Indo a rumo certo, me vejo em terras de Galícia,
de onde metade do que veio comigo,
os pais de meus pais levaram consigo.
Na passagem do século XIX ao XX,
partiram destas terras muito de seus filhos mais pobres
à busca de vidas melhores.
Descendentes celtas, mais tarde romanizados,
rudes e toscos, mas com coragem e força suficiente,
forjados nos milênios de história de sua gente,
ousaram a travessia entre mundos diferentes
para, quem sabe, se fazerem, do outro lado,
espalhando suas sementes.
Ela, moça prendada de Corbaliño,
aldeia de Ourense, à beira do Miño.
se enlaçou, em terras novas,
com o trabalhador obtuso, mas focado, vindo de Vigo,
próximo à Santiago de Compostela e Lugo,
mais tarde, o açougueiro que, por aqui, chamam carnicero.
Ramona e Eliseu, ele Martinez Orge, ela Gonzalez,
filhos do mesmo povo galego, despossuídos de berço,
sem muitas letras, que aprenderam a bem falar
excola, xardim, zapato, beixo, desexo ...
Meu pai, Eugênio, era Euxênio para o seu,
que, como bom espanhol, não pedia desculpas, mas perdón,
palavra demasiado intensa para os que reconhecem culpas
dentre nós, os povos novos.
Ramona, de quem ironicamente não se sabe muito,
só, entre nossotros, trouxe consigo pudores da aldeia.
Semeou o filho brasileiro,
para morrer na terra que sonhou no estrangeiro.
Por vergonha, não permitiu a estranhos
fazerem seu trabalho de estancar os sangues do parto,
de um filho, por certo, esperado.
Sequer lhe foi dado tempo de dar de seu leite ao rebento,
sobre quem pesou o destino da mãe,
tanto pelo trágico do fato, quanto pela face da maldade
nascida da ignorância, a culpar o inocente já na infância.
Pobre Euxênio, apostou no relho
para educar o filho primogênito,
na sincera convicção de que à força do exemplo
educaria o lote inteiro dos herdeiros.
Queria, hoje, ter uma nova chance de falar a este homem.
Sem a rebeldia adolescente, com a necessária perspectiva
ganha na distância dos anos.
Ser aquele que, antes de todos, lhe desse a mão.
Explicar-lhe que, se não sei como se faz,
por certo não seria do jeito feito que se faria melhor.
Ser, de fato, filho de meu pai que, desgraçadamente
se perdeu sem ter como entender o que lhe aconteceu.
Agora, eu sei.
Hoje, andando pelas velhas vielas de Ourense ou Carbaliño,
onde às altas horas da noite e às baixas temperaturas,
rotineiramente, pelas ruas passeiam bebês em seus carinhos,
me deparo com esta gente afável, educada,
quase paternal ao dar a mais simples informação,
percebo como tudo poderia ser diferente.
Tudo poderia ser vivido mais docemente
sob a transcendência dessas cidades de pedra,
rompendo o ciclo de vícios das causas e efeitos
que cindiram nossos híbridos peitos,
habituados aos amores desfeitos.

Eliseo Martinez
29.01.2019

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