Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 26 de abril de 2019

238.

Mensagem de fé e esperança


A história evolui em ciclos caprichosos,
não sem o dedo sujo dos sempre mesmos poderosos,
hábeis na arte de recriar simulacros,
em defesa de seus interesses privados.
Tanto fizeram que o giro da roda da fortuna
nos conduz a uma espécie de nova idade das trevas,
agora feita de cores, luzes, imagens e promessas de festa.
Será possível que em seus pesadelos mais insanos,
teriam imaginado os velhos romanos
o que a fortú faria de suas conquistas e louros?
Seduzidos pelo que reluz para poucos,
dos outros todos, quantos se dão conta
que o que lhes restou foi a encarniçada luta
pelas migalhas do bolo?
Mais uma vez chega o tempo de pisar as próprias pegadas,
num melancólico encontro marcado com o passado.
Ventos do esquecimento varrem campos inteiros
semeados pelo conhecimento,
desertificando o que era promessa de farta colheita.
Ervas daninhas proliferam por todo o lado,
prenunciando gerações destinadas aos pastos,
feito rebanhos de gado.
Medo, ódio e ignorância se enraízam 
nos corações e mentes de homens
de quem roubaram a esperança.
Desnorteadas, as bússolas apontam o sem-sentido,
num mundo em que, cada vez mais,
nos encontramos perdidos.
Mas, indiferente, a roda da fortuna segue girando...

Eliseo Martinez
27.04.2019
237.




A primeira pergunta
que martela a mente
daquele que se embrenha
na aventura da palavra é:
qual o sentido oculto do texto,
o que encerra o subtexto,
o que se esconde nas entrelinhas
capaz de decifrar o contexto?

Eliseo Martinez
26.04.2019

segunda-feira, 22 de abril de 2019

236.

Caminhos do deserto


Em meio ao mar rumoroso dos humanos

e coisas que se consomem,
por vezes, se faz necessário
abandonar o navio para se ir
rumo ao deserto que,
mais que singularidades geográficas,
se entende bem ali, à frente,
na mente daquele homem imóvel,
sentado à mesa do bar, do lado de fora.
Na inquietude de olhos que não param,
por quais oásis, dunas, miragens
se vai esse beduíno em seu dromedário,
agora?

Eliseo Martinez
22.04.2019

domingo, 21 de abril de 2019

235.

Caminhar


Ser como um Thoreau
que, à falta dos bosques,
anda por selvas feitas de prédios,
entre automóveis, gritos, assédios;
que, se já não conta com trilhas,
pisa o asfalto de ruas e avenidas;
que, sem a brisa dos vales e campinas,
respira o ar envenenado com metais pesados,
contornando montes de lixo.
Mas, sempre desobediente,
no mesmo impulso à liberdade,
oscilando entre o tumulto dos homens
e uma inevitável natureza segunda,
onde apenas se passa por eles,
em bandos sempre maiores
e mais invisíveis que nunca.
Tendo olhos para a beleza oculta
a ser revelada em meio a cidade
quando se permite instigar
os sentidos mais primitivos.
E, nesta atmosfera replicada,
em tempos de todas as crises,
se conectar a si mesmo.

Eliseo Martinez
21.04.2019 

sábado, 20 de abril de 2019

234.

Rotinas


Olha em volta à procura de mesa vazia,
à sombra de um sol do meio dia.
Chama o garçom, que não vinha.
Aos sábados, àquela hora, é visto por ali,
sentado do lado de fora,
que é onde os bares se humanizam e insolam.
Vem, como de costume,
inebriar ligeiramente os sentidos,
antepondo entre ele e o resto todo
um fino véu invisível,
sem perder detalhe de pessoa
ou coisa sensível.
É desses que levam os estados de alma
como abóboras que encerram seus caroços,
longe dos olhos dos outros.
Com tanta linha torta,
nunca dispensou régua e compasso
para calcular o que importa.
E a existência vai bem à frente, na lista.
É no que acredita.
Vive em estranha harmonia
com um punhado ralo de dissabores.
Pelo que se sabe, no entanto,
residem ali os males que, há alguns anos,
lhe dizimaram os que dele vieram.
Teriam batido de frente,
conduzindo pelos caminhos do desafeto.
No mais, parece não estar disposto
a espanar as migalhas de desconforto,
a elas afeiçoado,
pelo tempo em que o acompanham.
Talvez tema que, de outro modo,
deixe de reconhecer a si próprio.
O garçom, mal humorado como de hábito,
traz a Serra e um copo.
À luz que vaza pelos ramos das árvores
colore de âmbar o que verte da garrafa.
Por um tempo, observa.
Se põe a pensar.
Fica neste abandono por mais um pouco.
Talvez se ocupe do que fazer depois do almoço
ou o preocupe o quanto é difícil, nos dias de hoje,
continuar a amar o ofício dos que vivem de ensinar.
Quem saberia dizer?
Seja o que for, parece tentar ver
de outra forma, por algum outro lado, talvez...
Desiste.
Retornando a ele, bebe do âmbar gelado.
Vê a unanimidade nas mãos das pessoas em torno.
Que tanto esperam saltar daquelas telinhas,
seus donos?
Paga.
Levanta e anda, feito um Lázaro,
mais lagarto, a se esgueirar, do que pássaro alado.
Contorna a orla verde do parque,
depois de cruzar as tendas dos mascates
e some.

Eliseo Martinez
20.04.2019

sexta-feira, 19 de abril de 2019

233.

Radical


Esses dias,
vi alguém de entendimento duvidoso
acusar de radical um outro,
que me pareceu mais virtuoso,
como se isso o diminuísse
ou fosse suficiente para apagar o saber
que, por ventura, nele existisse.
Palavras encerram sutis armadilhas,
são pequenas celas que nos confinam
e o sentido que damos a elas,
torcido como o saca rolhas,
que abre o bom e o mau vinho,
alheio a escolha.
Já foi dito que ser radical é partir da raiz.
E, onde mais se enraíza a raiz
senão no coração selvagem de cada coisa?
Que mais é o amor
senão a radical experiência não feita
por aqueles que apenas se dizem amar?
Tanta inverdade dita sobre ele
passaria desapercebida
se não nos puséssemos à busca
da radical cumplicidade
e, assim, descobrir se ele existe,
ali, de verdade.
Talvez por isso, hoje, andem por ai,
desenvoltos sofistas, fazendo da verdade
uma sempre conveniente novidade
e, daquele que a persegue,
uma espécie de arauto da maldade.

Eliseo Martinez
19.04.2019

segunda-feira, 15 de abril de 2019


232.


De todas as lutas
já levadas a cabo,
a certeza que fica
é de que se avançou
quase nada.
Que seja!
Mas, que mais nos cabe?
Sentar à beira do rio
vendo o sol declinar
ao fim da tarde?
Sem ponto de chegada,
o que resta ao caminhante
é a caminhada.

Eliseo Martinez
15.04.2019

terça-feira, 2 de abril de 2019


231.

Pontes


Por toda parte,
lados desde sempre separados,
se vão um ao outro
pelas pontes que entre eles se levantam,
fazendo surgir um todo
dos que antes iam soltos.
Margens de rios e olhos que não se olham,
braços de terra e gentes que não se tocam,
homens ilhados em suas aldeias,
ideias que se defrontam com desconfiança,
credos outros que causam espanto.
Como não perceber que elos
nos tornam maiores, senão melhores?
Ligam o que era apenas um a um outro
e, assim, a muitos mais
que já se achavam juntos
pelos vínculos comuns, não raro,
mantidos à custa de árduo trabalho,
sob o calor dos dias e noites frias.
No entanto, se há tempo para levanta-las,
pode chegar o tempo de pô-las à baixo,
antes que desabem por si mesmas.
Não há que as deixar de pé
se a erosão faz delas armadilhas,
falsas promessas de travessia
aos que buscam, no lado oposto,
terra firme, quando esta não mais existe.
E o que foi a custo edificado
deve, por fim, ser derrubado.
Por vezes,
a flor do mal desabrocha por inteiro
e cada uma das pontes que nos ligam,
a um só tempo, têm de ser destruídas,
só restando trilhas mal abertas
que nos levem ao imprescindível
estrangeiro de nós mesmos.
E, novas pontes, quem sabe,
passem a compor a paisagem,
fazendo da ilha que todos somos,
arquipélagos onde sonhos,
que não têm donos,
possam, enfim, ser partilhados
pelos de um e outro lado.

Eliseo Martinez
02.04.2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019


230.

Pátria enganada, Brasil!


Neste dia, vestiram fardas, fantasias,
pintaram os rostos duros de alegria,
na tentativa de enganar néscios
por tamanha covardia
de um março que se ia.
Tinha apito, pipoca, nariz vermelho,
botas que de tanto brilho
refletiam feito espelhos,
saudosos dos valentes torturadores,
assassinos e estupradores,
além dos bons serviços
de carcereiros e coveiros.
Como faltou tolo para o festejo sem jeito,
confinaram-se nas casernas
como se fossem heróis da pátria amada,
ao lado do povo, em luta contra a miséria.
A malograda alquimia consistia 
em fazer do infame golpe, revolução
e, no entrevero da confusão,
aumentar soldo e pensão.
Os chefes da algazarra,
ao invés de coturnos lustrados,
estariam melhor trajados
na goma de uniformes listrados.
Ai, sim, com tudo pago!

Eliseo Martinez
31.03.2019