234.
Rotinas
Olha em volta à procura de mesa vazia,
à sombra de um sol do meio dia.
Chama o garçom, que não vinha.
Aos sábados, àquela hora, é visto por ali,
sentado do lado de fora,
que é onde os bares se humanizam e insolam.
Vem, como de costume,
inebriar ligeiramente os sentidos,
antepondo entre ele e o resto todo
um fino véu invisível,
sem perder detalhe de pessoa
ou coisa sensível.
É desses que levam os estados de alma
como abóboras que encerram seus caroços,
longe dos olhos dos outros.
Com tanta linha torta,
nunca dispensou régua e compasso
para calcular o que importa.
E a existência vai bem à frente, na lista.
É no que acredita.
Vive em estranha harmonia
com um punhado ralo de dissabores.
Pelo que se sabe, no entanto,
residem ali os males que, há alguns anos,
lhe dizimaram os que dele vieram.
Teriam batido de frente,
conduzindo pelos caminhos do desafeto.
No mais, parece não estar disposto
a espanar as migalhas de desconforto,
a elas afeiçoado,
pelo tempo em que o acompanham.
Talvez tema que, de outro modo,
deixe de reconhecer a si próprio.
O garçom, mal humorado como de hábito,
traz a Serra e um copo.
À luz que vaza pelos ramos das árvores
colore de âmbar o que verte da garrafa.
Por um tempo, observa.
Se põe a pensar.
Fica neste abandono por mais um pouco.
Talvez se ocupe do que fazer depois do almoço
ou o preocupe o quanto é difícil, nos dias de hoje,
continuar a amar o ofício dos que vivem de ensinar.
Quem saberia dizer?
Seja o que for, parece tentar ver
de outra forma, por algum outro lado, talvez...
Desiste.
Retornando a ele, bebe do âmbar gelado.
Vê a unanimidade nas mãos das pessoas em torno.
Que tanto esperam saltar daquelas telinhas,
seus donos?
Paga.
Levanta e anda, feito um Lázaro,
mais lagarto, a se esgueirar, do que pássaro alado.
Contorna a orla verde do parque,
depois de cruzar as tendas dos mascates
e some.
Eliseo Martinez
20.04.2019
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