233.
Radical
Esses dias,
vi alguém de entendimento duvidoso
acusar de radical um outro,
que me pareceu mais virtuoso,
como se isso o diminuísse
ou fosse suficiente para apagar o saber
que, por ventura, nele existisse.
Palavras encerram sutis armadilhas,
são pequenas celas que nos confinam
e o sentido que damos a elas,
torcido como o saca rolhas,
que abre o bom e o mau vinho,
alheio a escolha.
Já foi dito que ser radical é partir da raiz.
E, onde mais se enraíza a raiz
senão no coração selvagem de cada coisa?
Que mais é o amor
senão a radical experiência não feita
por aqueles que apenas se dizem amar?
Tanta inverdade dita sobre ele
passaria desapercebida
se não nos puséssemos à busca
da radical cumplicidade
e, assim, descobrir se ele existe,
ali, de verdade.
Talvez por isso, hoje, andem por ai,
desenvoltos sofistas, fazendo da verdade
uma sempre conveniente novidade
e, daquele que a persegue,
uma espécie de arauto da maldade.
Eliseo Martinez
19.04.2019
Nenhum comentário:
Postar um comentário