261.
Acho que vou ter de me reinventar!
Próximo à fronteira d'água que demarca
as terras de barrigas-verdes e gaúchos,
me instalei como, num tronco úmido,
se prende um caramujo.
Prá lá do Mampituba, Passo de Torres;
pelas bandas deste lado, simplesmente, Torres.
Além do serpentear do vasto rio,
os rochedos que avançam mar a dentro
formam um dos mais belos cenários
do litoral brasileiro.
Por aqui, arranha-céus compartilham espaços
com graciosas casas com traços do passado.
A pobreza, que se vê por toda parte,
por estas paragens, é mais atenuada,
e integrada, de forma mais humanizada
à comunidade.
Não! Também não é o fim da luta de classes,
estes são tempos avessos a milagres.
Excluídos os meses de veraneio,
que vão de dezembro à fevereiro,
fantasmas que habitam as moradas,
só reabertas nos verões de cada ano,
passam desapercebidos aos locais,
ocupados nas lides sem pressa
de seu próprio cotidiano.
A poucas quadras do coreto da cidade,
tem-se aquela sensação emprestada
dos velhos filmes de ficção,
onde, depois do apocalipse da vez,
estamos sós, e a raça humana evaporou,
escafedendo-se de vez.
Fantasia que beira o obsceno,
saída de um mal estar que nos habituamos
ao viver nos grandes centros urbanos,
povoando o imaginário de indivíduos
imersos em meio hostil,
entre hordas de desconhecidos.
Acostumado ao caos organizado
de uma Porto Alegre mal cuidada,
me vejo no sossego desta cidade costeira,
de ruas bem traçadas e gente hospitaleira,
onde não falta quem passe pela calçada,
cumprimente, puxe conversa e se apresente.
O ruído de fundo já não é o dos automóveis
que passam, mas das ondas que rebentam
na beira da praia na maré alta.
E, o melhor de tudo, deste lugar,
é o pulso da vida que bate mais lento.
A imensidão do mar a frente
se estende sem terra à vista
até as verdes costas da África.
A norte e sul, as praias de areias brancas
se perdem para muito além dos sentidos,
dando uma dimensão diferente ao olhar
encaixotado do que foi acostumado
a ter o horizonte roubado,
saturado de imagens recortadas.
Desacelerar é o desafio do forasteiro,
fazer as pazes com o tempo,
deixar fluir devagar,
valorizar a simplicidade do momento.
E, sem receio da redundância,
dar tempo ao tempo pra vida correr,
ou melhor, caminhar do seu jeito.
Eliseo Martinez
30.08.2019
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
sábado, 31 de agosto de 2019
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
260.
Vou me embora lá prás Torres
Hoje, acordei foi com as galinhas.
Metida a tralha na mala,
me fui por trilhas de asfalto a terras mais ao alto
à procura de abrigo
pros invernos que me faltam.
Nestas idas peregrinas,
apeei pelas bordas catarinas.
Tinha de ter rio
e com o rio me veio o mar.
Tinha de ter gente,
mas não gente demais.
Tinha de ter pedra;
duna, furna e falésia
é que tem por lá.
Tem canto de passarinho,
tem golfinho e ondas
que rebentam de mansinho
nas areias desse lugar.
Não, não é Pasárgada,
pode apostar!
Mas lá vou catar conchinha
e andar na praia até cansar;
ler livros que fui colhendo
pela vida, devagar;
escutar as músicas
que andavam mudas,
esquecidas de cantar.
Tem igrejinha
do tempo do imperador
prá sentar e matutar
sobre o peso do andor.
É onde meu olhar vai ser livre,
desimpedido de automóvel,
prédio, moto-boy
ou desconhecido inimigo,
feliz como cão de apartamento,
solto e sem coleira,
abanando rabo ao vento.
É o lugar que escreverei
as besteirinhas que me calharem
por acaso de pensar,
até que nada mais que preste
me escorra da cabeça à mão,
com que já não consiga desenhar.
Se der na telha,
viro Quixote de caniço,
empunho escudo de samburá
e até minhoca vou banhar.
Quem sabe não é por lá
que minha Dulcinéa andará?
Não, não é a casa no campo
da Elis ou do Zé Rodrix
ou de outros tantos por ai.
É lugar que se pode pisar,
tem casquinha de siri,
caipirinha e brisa do mar,
um sol que de lá levanta
e um puta dum luar.
Se der enrosco
e a polícia me procurar,
braços n'água, vazo a nado,
que na Ilha dos Lobos
pé de boi algum vai me pegar.
E, como disse Mandela,
cheio de afeto, mais uma vez:
"não me liguem, eu ligo pra vocês!".
Eliseo Martinez
24.08.2019
Vou me embora lá prás Torres
Hoje, acordei foi com as galinhas.
Metida a tralha na mala,
me fui por trilhas de asfalto a terras mais ao alto
à procura de abrigo
pros invernos que me faltam.
Nestas idas peregrinas,
apeei pelas bordas catarinas.
Tinha de ter rio
e com o rio me veio o mar.
Tinha de ter gente,
mas não gente demais.
Tinha de ter pedra;
duna, furna e falésia
é que tem por lá.
Tem canto de passarinho,
tem golfinho e ondas
que rebentam de mansinho
nas areias desse lugar.
Não, não é Pasárgada,
pode apostar!
Mas lá vou catar conchinha
e andar na praia até cansar;
ler livros que fui colhendo
pela vida, devagar;
escutar as músicas
que andavam mudas,
esquecidas de cantar.
Tem igrejinha
do tempo do imperador
prá sentar e matutar
sobre o peso do andor.
É onde meu olhar vai ser livre,
desimpedido de automóvel,
prédio, moto-boy
ou desconhecido inimigo,
feliz como cão de apartamento,
solto e sem coleira,
abanando rabo ao vento.
É o lugar que escreverei
as besteirinhas que me calharem
por acaso de pensar,
até que nada mais que preste
me escorra da cabeça à mão,
com que já não consiga desenhar.
Se der na telha,
viro Quixote de caniço,
empunho escudo de samburá
e até minhoca vou banhar.
Quem sabe não é por lá
que minha Dulcinéa andará?
Não, não é a casa no campo
da Elis ou do Zé Rodrix
ou de outros tantos por ai.
É lugar que se pode pisar,
tem casquinha de siri,
caipirinha e brisa do mar,
um sol que de lá levanta
e um puta dum luar.
Se der enrosco
e a polícia me procurar,
braços n'água, vazo a nado,
que na Ilha dos Lobos
pé de boi algum vai me pegar.
E, como disse Mandela,
cheio de afeto, mais uma vez:
"não me liguem, eu ligo pra vocês!".
Eliseo Martinez
24.08.2019
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
domingo, 11 de agosto de 2019
258.
Desistência
Tudo começou quando, ainda jovem,
ao ser seduzido, enamorou-se da melancolia.
Dava-lhe um certo alento, pois,
pelo avesso, se reconhecia.
Algo como uma identidade,
um jeito de ser só dele
pareceu-lhe que dali nascia.
Recompensado por essa quase dor,
passou a sentir uma nostalgia de si,
fazendo-se objeto oculto do próprio amor.
Deste modo, as insipientes vagas
da tristeza foram romantizadas,
como o aconchego que se encontra
sob as cobertas no rigor de uma tarde gelada.
Sem cuidados, a engrenagem se pôs a girar
sobre o pequeno dente quebrado...
Mais tarde, já feito adulto,
por via torta, acabou por superar as dúvidas
de si mesmo e as dúvidas do mundo,
soterrando tudo junto
na cova que conseguiu cavar mais fundo.
Em um único gesto, diluiu a linha divisória
entre a sanidade e a loucura,
seco de afetos, ressecado de ternuras.
Encaixotou o passado e,
ao desistir do presente, suicidou futuros.
Da última vez que o vi,
trazia o fogo dos olhos morto.
Estava mais para um corpo oco,
nada dentro além do reto e do estômago.
De que lhe valeria, agora,
o par de ases escondido na cartola
ou a vaga crença de que algum dia
ainda tocaria o ouro, o incenso e a mirra,
trazidos de um oriente que jamais veria?
Como tantos outros,
sucumbiu ao mal de seu tempo,
que varre a vontade dos homens
como as areias são varridas pelo vento.
E pensar que delirou passarolas
coletando vontades mundo a fora,
entre Baltazares, Sete Sóis
e Blimundas, Sete Luas.
Pelo que consta, consumiu
as forças que ainda tinha
negando qualquer ação ou movimento
naquele seu último dia de tormento.
Quedado e imóvel, foi encontrado.
Assim me foi contado.
Como alguém que, sem bússola,
água ou qualquer útil objeto,
se vai a passos largos, rumo reto,
pelo mais tórrido dos desertos.
Simplesmente, desistiu!
Ainda há de se deixar de lado
a intrincada luneta das teorias
que, à distância, ensaia
foco no fenômeno humano
para, com uma simples lupa
focar no trágico de cada homem,
com número de previdência, rosto,
nome e sobrenome
e, quem sabe, assim, sanar os danos
que resultam do jogo das escolhas
que já vêm marcadas
como cartas de um baralho viciado.
Eliseo Martinez
11.08.2019
Desistência
Tudo começou quando, ainda jovem,
ao ser seduzido, enamorou-se da melancolia.
Dava-lhe um certo alento, pois,
pelo avesso, se reconhecia.
Algo como uma identidade,
um jeito de ser só dele
pareceu-lhe que dali nascia.
Recompensado por essa quase dor,
passou a sentir uma nostalgia de si,
fazendo-se objeto oculto do próprio amor.
Deste modo, as insipientes vagas
da tristeza foram romantizadas,
como o aconchego que se encontra
sob as cobertas no rigor de uma tarde gelada.
Sem cuidados, a engrenagem se pôs a girar
sobre o pequeno dente quebrado...
Mais tarde, já feito adulto,
por via torta, acabou por superar as dúvidas
de si mesmo e as dúvidas do mundo,
soterrando tudo junto
na cova que conseguiu cavar mais fundo.
Em um único gesto, diluiu a linha divisória
entre a sanidade e a loucura,
seco de afetos, ressecado de ternuras.
Encaixotou o passado e,
ao desistir do presente, suicidou futuros.
Da última vez que o vi,
trazia o fogo dos olhos morto.
Estava mais para um corpo oco,
nada dentro além do reto e do estômago.
De que lhe valeria, agora,
o par de ases escondido na cartola
ou a vaga crença de que algum dia
ainda tocaria o ouro, o incenso e a mirra,
trazidos de um oriente que jamais veria?
Como tantos outros,
sucumbiu ao mal de seu tempo,
que varre a vontade dos homens
como as areias são varridas pelo vento.
E pensar que delirou passarolas
coletando vontades mundo a fora,
entre Baltazares, Sete Sóis
e Blimundas, Sete Luas.
Pelo que consta, consumiu
as forças que ainda tinha
negando qualquer ação ou movimento
naquele seu último dia de tormento.
Quedado e imóvel, foi encontrado.
Assim me foi contado.
Como alguém que, sem bússola,
água ou qualquer útil objeto,
se vai a passos largos, rumo reto,
pelo mais tórrido dos desertos.
Simplesmente, desistiu!
Ainda há de se deixar de lado
a intrincada luneta das teorias
que, à distância, ensaia
foco no fenômeno humano
para, com uma simples lupa
focar no trágico de cada homem,
com número de previdência, rosto,
nome e sobrenome
e, quem sabe, assim, sanar os danos
que resultam do jogo das escolhas
que já vêm marcadas
como cartas de um baralho viciado.
Eliseo Martinez
11.08.2019
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
257.
Em tempos que a humanidade
se vê a dar passos atrás,
o que há de mais dramático
do que se pôr ao encalço
da excomungada coerência?
Pensar claro, é claro que faz doer.
Mas, enquanto pensar,
até um asno pode fazer,
raciocinar é coisa bem diferente,
é um trabalho que damos à mente,
é o que realiza com força suficiente
a potência de um ser humano
que, antes, apenas encontrava-se ali,
menor do que ele mesmo,
empenhado em perpetuar
a banalidade do mal,
sem ao menos dar-se por tal.
Eliseo Martinez
07.08.2019
Em tempos que a humanidade
se vê a dar passos atrás,
o que há de mais dramático
do que se pôr ao encalço
da excomungada coerência?
Pensar claro, é claro que faz doer.
Mas, enquanto pensar,
até um asno pode fazer,
raciocinar é coisa bem diferente,
é um trabalho que damos à mente,
é o que realiza com força suficiente
a potência de um ser humano
que, antes, apenas encontrava-se ali,
menor do que ele mesmo,
empenhado em perpetuar
a banalidade do mal,
sem ao menos dar-se por tal.
Eliseo Martinez
07.08.2019
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