Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 31 de agosto de 2019

261.


Acho que vou ter de me reinventar!

Próximo à fronteira d'água que demarca
as terras de barrigas-verdes e gaúchos,
me instalei como, num tronco úmido,
se prende um caramujo.
Prá lá do Mampituba, Passo de Torres;
pelas bandas deste lado, simplesmente, Torres.
Além do serpentear do vasto rio,
os rochedos que avançam mar a dentro
formam um dos mais belos cenários
do litoral brasileiro.
Por aqui, arranha-céus compartilham espaços
com graciosas casas com traços do passado.
A pobreza, que se vê por toda parte,
por estas paragens, é mais atenuada,
e integrada, de forma mais humanizada
à comunidade.
Não! Também não é o fim da luta de classes,
estes são tempos avessos a milagres.
Excluídos os meses de veraneio,
que vão de dezembro à fevereiro,
fantasmas que habitam as moradas,
só reabertas nos verões de cada ano,
passam desapercebidos aos locais,
ocupados nas lides sem pressa
de seu próprio cotidiano.
A poucas quadras do coreto da cidade,
tem-se aquela sensação emprestada
dos velhos filmes de ficção,
onde, depois do apocalipse da vez,
estamos sós, e a raça humana evaporou,
escafedendo-se de vez.
Fantasia que beira o obsceno,
saída de um mal estar que nos habituamos
ao viver nos grandes centros urbanos,
povoando o imaginário de indivíduos
imersos em meio hostil,
entre hordas de desconhecidos.
Acostumado ao caos organizado
de uma Porto Alegre mal cuidada,
me vejo no sossego desta cidade costeira,
de ruas bem traçadas e gente hospitaleira,
onde não falta quem passe pela calçada,
cumprimente, puxe conversa e se apresente.
O ruído de fundo já não é o dos automóveis
que passam, mas das ondas que rebentam
na beira da praia na maré alta.
E, o melhor de tudo, deste lugar, 
é o pulso da vida que bate mais lento.
A imensidão do mar a frente
se estende sem terra à vista
até as verdes costas da África.
A norte e sul, as praias de areias brancas
se perdem para muito além dos sentidos,
dando uma dimensão diferente ao olhar
encaixotado do que foi acostumado
a ter o horizonte roubado,
saturado de imagens recortadas.
Desacelerar é o desafio do forasteiro,
fazer as pazes com o tempo,
deixar fluir devagar,
valorizar a simplicidade do momento.
E, sem receio da redundância,
dar tempo ao tempo pra vida correr,
ou melhor, caminhar do seu jeito.

Eliseo Martinez
30.08.2019

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