258.
Desistência
Tudo começou quando, ainda jovem,
ao ser seduzido, enamorou-se da melancolia.
Dava-lhe um certo alento, pois,
pelo avesso, se reconhecia.
Algo como uma identidade,
um jeito de ser só dele
pareceu-lhe que dali nascia.
Recompensado por essa quase dor,
passou a sentir uma nostalgia de si,
fazendo-se objeto oculto do próprio amor.
Deste modo, as insipientes vagas
da tristeza foram romantizadas,
como o aconchego que se encontra
sob as cobertas no rigor de uma tarde gelada.
Sem cuidados, a engrenagem se pôs a girar
sobre o pequeno dente quebrado...
Mais tarde, já feito adulto,
por via torta, acabou por superar as dúvidas
de si mesmo e as dúvidas do mundo,
soterrando tudo junto
na cova que conseguiu cavar mais fundo.
Em um único gesto, diluiu a linha divisória
entre a sanidade e a loucura,
seco de afetos, ressecado de ternuras.
Encaixotou o passado e,
ao desistir do presente, suicidou futuros.
Da última vez que o vi,
trazia o fogo dos olhos morto.
Estava mais para um corpo oco,
nada dentro além do reto e do estômago.
De que lhe valeria, agora,
o par de ases escondido na cartola
ou a vaga crença de que algum dia
ainda tocaria o ouro, o incenso e a mirra,
trazidos de um oriente que jamais veria?
Como tantos outros,
sucumbiu ao mal de seu tempo,
que varre a vontade dos homens
como as areias são varridas pelo vento.
E pensar que delirou passarolas
coletando vontades mundo a fora,
entre Baltazares, Sete Sóis
e Blimundas, Sete Luas.
Pelo que consta, consumiu
as forças que ainda tinha
negando qualquer ação ou movimento
naquele seu último dia de tormento.
Quedado e imóvel, foi encontrado.
Assim me foi contado.
Como alguém que, sem bússola,
água ou qualquer útil objeto,
se vai a passos largos, rumo reto,
pelo mais tórrido dos desertos.
Simplesmente, desistiu!
Ainda há de se deixar de lado
a intrincada luneta das teorias
que, à distância, ensaia
foco no fenômeno humano
para, com uma simples lupa
focar no trágico de cada homem,
com número de previdência, rosto,
nome e sobrenome
e, quem sabe, assim, sanar os danos
que resultam do jogo das escolhas
que já vêm marcadas
como cartas de um baralho viciado.
Eliseo Martinez
11.08.2019
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