260.
Vou me embora lá prás Torres
Hoje, acordei foi com as galinhas.
Metida a tralha na mala,
me fui por trilhas de asfalto a terras mais ao alto
à procura de abrigo
pros invernos que me faltam.
Nestas idas peregrinas,
apeei pelas bordas catarinas.
Tinha de ter rio
e com o rio me veio o mar.
Tinha de ter gente,
mas não gente demais.
Tinha de ter pedra;
duna, furna e falésia
é que tem por lá.
Tem canto de passarinho,
tem golfinho e ondas
que rebentam de mansinho
nas areias desse lugar.
Não, não é Pasárgada,
pode apostar!
Mas lá vou catar conchinha
e andar na praia até cansar;
ler livros que fui colhendo
pela vida, devagar;
escutar as músicas
que andavam mudas,
esquecidas de cantar.
Tem igrejinha
do tempo do imperador
prá sentar e matutar
sobre o peso do andor.
É onde meu olhar vai ser livre,
desimpedido de automóvel,
prédio, moto-boy
ou desconhecido inimigo,
feliz como cão de apartamento,
solto e sem coleira,
abanando rabo ao vento.
É o lugar que escreverei
as besteirinhas que me calharem
por acaso de pensar,
até que nada mais que preste
me escorra da cabeça à mão,
com que já não consiga desenhar.
Se der na telha,
viro Quixote de caniço,
empunho escudo de samburá
e até minhoca vou banhar.
Quem sabe não é por lá
que minha Dulcinéa andará?
Não, não é a casa no campo
da Elis ou do Zé Rodrix
ou de outros tantos por ai.
É lugar que se pode pisar,
tem casquinha de siri,
caipirinha e brisa do mar,
um sol que de lá levanta
e um puta dum luar.
Se der enrosco
e a polícia me procurar,
braços n'água, vazo a nado,
que na Ilha dos Lobos
pé de boi algum vai me pegar.
E, como disse Mandela,
cheio de afeto, mais uma vez:
"não me liguem, eu ligo pra vocês!".
Eliseo Martinez
24.08.2019
Nenhum comentário:
Postar um comentário