297.
Como assim "não vem ao caso" ?
Sem mais, o errante cavaleiro,
apeado da égua em que montava,
se pôs a matutar junto ao fogo
que ardia em pouca brasa,
num ermo de coxilha
envolto pela fria madrugada:
... não me falte o toque leve
ao pisar a lâmina d'água
do mais manso dos riachos
à beira da estrada
ou o coice da pata
de um chucro baio
quando se fizer necessário...
Com o estranho voto manifesto,
na solidão do campo aberto,
o rude gaudério se vai
a trote lento vingar ofensa
ou pedir a mão de prenda
- o que, por hora, não vem ao caso -
sob uma noite estrelada,
já rajada, no horizonte,
de alvorada.
Eliseo Martinez
30.05.2020
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
sábado, 30 de maio de 2020
sexta-feira, 29 de maio de 2020
296.
Recreio
Sei lá! Às vezes,
sou assaltado pelo desejo insano
de tocar as asas
de um pensamento errante
em sobrevoo por oceanos
sem terras que ofereçam ramo
a pouso que o descanse,
antes de se ir adiante.
E eu, livre bicho humano,
desobrigado se seguir um plano,
na ventura do acaso
de ser transpassado
pelo lume que fecunda o mundo
no desatino do primeiro vagabundo,
eriçado de desassossegos
em seu espírito sem freios,
pelos recreios da tênue existência
compartilhada sem receio.
Eliseo Martinez
29.05.2020
Recreio
Sei lá! Às vezes,
sou assaltado pelo desejo insano
de tocar as asas
de um pensamento errante
em sobrevoo por oceanos
sem terras que ofereçam ramo
a pouso que o descanse,
antes de se ir adiante.
E eu, livre bicho humano,
desobrigado se seguir um plano,
na ventura do acaso
de ser transpassado
pelo lume que fecunda o mundo
no desatino do primeiro vagabundo,
eriçado de desassossegos
em seu espírito sem freios,
pelos recreios da tênue existência
compartilhada sem receio.
Eliseo Martinez
29.05.2020
quinta-feira, 28 de maio de 2020
295.
Recortes da pandemia III
( Para não esquecer... )
Aos enfermeiros e médicos
da linha de frente
poderia ser gravado ao pé do leito
de cada sobrevivente:
Dispôs-se a colher do solo
calcinado cada semente,
seja frágil ou resistente,
pondo-se a regá-la diariamente
com a fé do missionário
na faina de salvá-la,
expondo a si e aos seus
com seu árduo trabalho,
condenado ao testemunho
do suplício das almas solitárias
aprisionadas na asfixia
dos corpos amontoados
pelos corredores dos templos
do horror, superlotados,
que apenas contam com o amparo
do imprescindível gesto
desse homem ou mulher,
de jaleco branco ou esverdeado,
em seu ofício solidário.
Eliseo Martinez
28.05.2020
Recortes da pandemia III
( Para não esquecer... )
Aos enfermeiros e médicos
da linha de frente
poderia ser gravado ao pé do leito
de cada sobrevivente:
Dispôs-se a colher do solo
calcinado cada semente,
seja frágil ou resistente,
pondo-se a regá-la diariamente
com a fé do missionário
na faina de salvá-la,
expondo a si e aos seus
com seu árduo trabalho,
condenado ao testemunho
do suplício das almas solitárias
aprisionadas na asfixia
dos corpos amontoados
pelos corredores dos templos
do horror, superlotados,
que apenas contam com o amparo
do imprescindível gesto
desse homem ou mulher,
de jaleco branco ou esverdeado,
em seu ofício solidário.
Eliseo Martinez
28.05.2020
quarta-feira, 27 de maio de 2020
294.
Dias brancos
Encerrados nas casamatas
que já nos acolheram como lares
ou, pelo menos,
por nós chamadas de nossas casas,
nestes meses tomados pela peste,
inaugurado que foi o "novo normal"
de toda a espécie,
pouco a pouco,
passamos a ser como aquele
de quem a memória vai se desprendendo
e a imaginação desacontencendo,
imersos num movimento estático,
eternizados numa dobra do tempo presente
nos limites do quadrado de um apartamento,
sem o rastro das pegadas que se apagam
ou algo que nos aguarde aos fins de tarde,
feito a foto que esmaece
pendurada na parede,
tornada invisível aos mesmos olhos
que, se vissem a si mesmos
sob o malho da bigorna das rotinas,
se veriam dissolvendo na condição primitiva
de simplesmente continuar existindo,
sem por isso se ver, assim, vivendo.
Nestes dias passados em branco,
como tudo o mais,
também nós, vamos desbotando...
Eliseo Martinez
26.05.2020
Dias brancos
Encerrados nas casamatas
que já nos acolheram como lares
ou, pelo menos,
por nós chamadas de nossas casas,
nestes meses tomados pela peste,
inaugurado que foi o "novo normal"
de toda a espécie,
pouco a pouco,
passamos a ser como aquele
de quem a memória vai se desprendendo
e a imaginação desacontencendo,
imersos num movimento estático,
eternizados numa dobra do tempo presente
nos limites do quadrado de um apartamento,
sem o rastro das pegadas que se apagam
ou algo que nos aguarde aos fins de tarde,
feito a foto que esmaece
pendurada na parede,
tornada invisível aos mesmos olhos
que, se vissem a si mesmos
sob o malho da bigorna das rotinas,
se veriam dissolvendo na condição primitiva
de simplesmente continuar existindo,
sem por isso se ver, assim, vivendo.
Nestes dias passados em branco,
como tudo o mais,
também nós, vamos desbotando...
Eliseo Martinez
26.05.2020
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