294.
Dias brancos
Encerrados nas casamatas
que já nos acolheram como lares
ou, pelo menos,
por nós chamadas de nossas casas,
nestes meses tomados pela peste,
inaugurado que foi o "novo normal"
de toda a espécie,
pouco a pouco,
passamos a ser como aquele
de quem a memória vai se desprendendo
e a imaginação desacontencendo,
imersos num movimento estático,
eternizados numa dobra do tempo presente
nos limites do quadrado de um apartamento,
sem o rastro das pegadas que se apagam
ou algo que nos aguarde aos fins de tarde,
feito a foto que esmaece
pendurada na parede,
tornada invisível aos mesmos olhos
que, se vissem a si mesmos
sob o malho da bigorna das rotinas,
se veriam dissolvendo na condição primitiva
de simplesmente continuar existindo,
sem por isso se ver, assim, vivendo.
Nestes dias passados em branco,
como tudo o mais,
também nós, vamos desbotando...
Eliseo Martinez
26.05.2020
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