293.
Quebra-cabeça
Avinhado, como convêm
a malditos, pulhas, injuriados,
sigo a sina clandestina
entre paredes que se fecham
no cubículo que me abriga.
Nestes tempos contaminados
de puro ódio e dados viciados
lançados à sorte,
valendo moedas de vida
e moedas de morte,
me vou noite à dentro
sem poção ou mandinga
que sirva de unguento,
tramando encaixes perfeitos
no mapa de um mundo em pedaços
estampado no quebra-cabeça
espalhado sobre a mesa,
enquanto ouvem-se sons de coturnos
vindo das ruas mergulhadas no escuro.
Amanhã, na dose diária
do trágico noticiário
saberemos pelas ondas do rádio
que a cada peça encaixada
na madrugada um desgraçado
desencaixou-se do plano traçado.
Pouco importa se bicho-homem,
ou rês desgarrada da manada.
Cada vida conta,
de banal é que não pode haver nada.
Eliseo Martinez
28.04.2020
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