290.
Morador do porão
Para que se escreve
senão para nos cutucar
ao brincar com as palavras,
fazer delas pipas
que se empinam acima
do comboio ocre dos dias,
inventar sentidos outros
daqueles com que,
no cotidiano,
nos batem no rosto,
reinventar memórias
e se deixar ir pelos labirintos
de nós mesmos,
para onde escorrem
íntimos segredos,
estranhos que nos somos,
envoltos no espesso
de sombras e medos?
Escrever é o ato eremita
de se observar ao vazar
e, num desses golpes de sorte
ou, mesmo, azar,
vir a cruzar
com o recluso morador
do porão do primeiro andar.
Escrever é ...
Eliseo Martinez
19.04.2020
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