Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 5 de abril de 2020

287.

Pandemia

Antevisto por profetas,
musicado por poetas,
nas telas encenado
e em livros romanceado,
o que ninguém acreditou:
o dia em que a Terra parou.
Sem prévio aviso
uma força invisível
coroada de pânico e vírus
tornou impossível
o rol das pequenas rotinas
com que transitamos
pelo caos desta já dura vida.
De repente, o espaço foi confinado
e o tempo sem freio, desacelerado.
Alçada a único tema,
a pandemia se alastrou pelas mídias,
em uníssono, a tatear seus dilemas.
O medo igualou-nos a todos,
revelando a política como
o jogo raso a serviço dos tolos.
Por trás das portas trancadas,
solitários deparam-se com o peso
da própria existência.
De súbito, perplexos familiares
dão de cara no interior das residências.
Amantes se veem nus
como jamais se viram antes,
expondo as cracas de pus
do que já chamaram romance.
Em fuga de nós mesmos,
encurralados entre paredes,
horrorizados,
nos vemos sob holofotes,
ante espelhos quebrados.
Por força da trágica esparrela
toma curso o difícil
aprendizado da espera.
Alguns, a custo, vão percebendo
quanto tempo tem o tempo,
outros saem à busca
do milagroso remédio
que os salvem do tédio.
Mascarados de olhar furtivo
e passo apressado
cruzam por corredores
de prateleiras banguelas
nos supermercados.
Não há voo que se pegue
que livre rico, remediado
ou cabra da peste,
enquanto o planeta inteiro
da mesma mazela padece.
Pelas ruas vazias,
o ceifador de olhos sem vida,
envolto de trevas, espreita de dentro
dos panos pretos
da medieval vestimenta,
levando consigo a foice curva
com sua lâmina fria.
Depois do mal semeado,
esse anjo da morte faz a colheita
do que foi, ao acaso, plantado,
legando a bacia das almas
aos demais condenados.

Eliseo Martinez
05.04.2020

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