Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

311.

Machado - Loucura e ironia

Em fins de setembro de 1908, morria no
Rio de Janeiro um dos mais destacados
escritores da língua portuguesa.
Aquele que, apesar da face austera 
estampada em fotos, revelaria a
mente dotada de voltas à mais que o
normal dos mortais.
Aos 69 anos de idade, se ia Machado
de Assis, o iniciador do realismo no
Brasil e o primeiro a presidir a
Academia Brasileira de Letras,
que ajudou a fundar, em meio ao rico
legado literário deixado e a depressão,
ou melancolia, como à época era
chamada.
Com sua pena, Machado deu vida aos
que ficam para estada bem mais longa:
Brás Cubas, Quincas Borba (bicho e
homem), Rubião, Casmurro e tantos
mais; que, uma vez nos apresentados na
adolescência, deveriam ser revisitados
na maior idade para que cada um fosse
mais bem escutado, não apenas pelo
que fala ou grita, mas pelo que
ruidosamente sussurra sobre nós
mesmos.
O amplo inventário das imperfeições e
do contraditório que compõem a unidade
de seus personagens é a seta que
encontra o alvo móvel da diversidade  
que coabita desde sempre a alma de
toda a gente.
Autor de método e avesso às
linearidades do estereótipo, Machado
de Assis discorre com sagacidade sobre
a complexa psique humana, não raro,
usando da fragmentação que encadeia
o texto em múltiplos capítulos,
por vezes, feitos de uma única frase,
para melhor expor a nuance em seus
desdobramentos, sempre de forma clara,
contundente e de sóbrio humor, com o
toque da irreverência.
A ironia, que é um jeito outro de falar do
mesmo, mas com a vocação de eriçar
sentidos, aguçando a atenção do leitor
atento, encontra na descrição de
Machado o que reveste a pele da
aparência e subjaz oculto nos labirintos
do inconsciente, revelando o que se
move dentro e fora, o grão da dúvida
encravado no solo insólito das certezas,
assim como o olhar duro do coletivo
sobre o indivíduo, em solidão
permanente, e a loucura com que este,
por vezes, lhe responde, tudo posto na
limpidez da língua, fluidez da escrita
e astúcia das imagens que transcendem
tempo e espaço, condensando o que
um outro, a nos observar de longe,
chamaria homem.


Eliseo Martinez
28.09.2020

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

310.

O nome

Podemos nos ir deste mundo
sem rastro que leve ao que fomos,
basta que se perca o nome
que, ao nascer, sem que se peça,
herdamos.
O nome é a resposta que damos
às urgências do tempo,
algo do pouco que nos preserva
para além do corpo, em breve
a apodrecer numa orgia de vermes.
O nome dura mais do que a gente,
levando consigo nossos vestígios,
antes de sumirmos para sempre.
Havendo prole, quem sabe?,
seremos lembrados,
passando o nome que recebemos
aos recém chegados,
tornando menos perfeito
o irredutível trabalho da morte,
obrigada a se abancar na estação
até que passe, de cada comboio,
o último vagão.
Acaso nos falte a estima,
ovo mal chocado da família,
o nome pode não ser mais
que as posses ou dívidas
que ficam com as partidas.
Com sorte, o inventário aberto
e uma magra partilha,
sempre em hora certa.
Mas, se não faltar boa vontade,
o nome é bem mais, na verdade.
É o fio que nos liga às origens
e uma pista indefectível
do fruto que nos tornamos,
seja lá quem formos,
vingando dessas raízes,
para o salto do alto dos ramos.
Sem o nome, somos apenas "aquele".
Quem? "Aquele, que fez isto ou aquilo,
ou mesmo, o que nada fez de bem feito.
Ladrão, corrupto ou assassino,
para se ficar nas tendências de sempre.
Que não se omita o de "filho da puta",
para os amantes da língua menos culta.
Ah! Também, pode ter sido o professor,
ou o que não foi útil aos rebentos,
tão contaminados de vontades,
nestes tempos virulentos.
Pode ser o nada do vácuo
perdido no espaço,
com validade vencida de prazo.
Pode ser apenas
o que todos seremos ainda,
o átomo que está em tudo
e já não se sabe se finda,
no tédio infinito de tanto giro.
Pode, até, ser um desses,
que, pelo acaso, veio dar
neste prato de comida,
me entrando pela boca
na fome do meio-dia,
para se despedir pelo cu,
num vaso sem flores,
no outro dia.

Eliseo Martinez
23.09.2020


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 309.

As cores do gris


Nos acostumamos a sonhar em cores,
sonhos que se sonha acordado.
O que é imprescindível,
não há que negar, fique claro.
Mas é justo que saibamos,
ainda, assim, se tratam de sonhos.
O preço da existência
do que provou do gozo intenso
de a ter povoado de pensamentos
é o de dar-se conta que, com o tempo,
se evaporam os estoques de alegrias,
por mais que elas iluminem os dias,
enquanto, mais ao fundo,
sedimentam-se as tristezas, por vezes,
cravadas de anzóis da melancolia.
É o peso dos anos que, agora,
se fazem presentes, pelo menos
aos que ousaram desvelar-se,
na consciência de serem humanos
e não deuses, que os tolos
mal desconfiaram que inventamos.
O idiota, do sublime russo,
veria nisso o obstáculo intransponível
à fantasiosa felicidade, por ele criada.
Jamais entenderia que aqueles
que se perderam à procura das causas,
se encontraram em reflexões,
no trabalho árduo entre as razões,
calejados na bigorna das buscas e erros,
frustrações, desenganos e recomeços
e, ali mesmo, forjados
com o que conseguiram de acertos.
Estes não poderiam, de fato,
vir a juntar-se aos contentes.
Talvez por isso,
reservem à ênfase dos felizes,
não mais que sua conhecida,
enigmática e desprezível, ironia,
já que é no estado de paz
dos que ousaram arriscar a errar,
em que acreditam.
Nada mais que essa pequena
"felicidade" lhes cabe.
Não é azul, rosa ou laranja,
nem de um vermelho exuberante.
São de cores gris,
em que já não se sonha feito antes.
É a face, sem maquiagem,
do que é real e palpável.
E nem foi mencionado, aqui,
as verdades que trazem.
Não nos abandone a arte
mas, à falta dela,
que a alguém baste a realidade.

Eliseo Martinez
21.09.2020




quarta-feira, 16 de setembro de 2020

308.

Comunidade

Ante o horror oculto
sob os ritos cotidianos,
quase desapercebido
ao comum dos humanos,
que sorte pode aguardar
o maldito olho agudo
senão ser apontado como infame
ao contrapor-se, inconveniente,
aos rumos do rebanho?
A diferença faz fermentar
intensos sentimentos,
que destilarão ódios irascíveis,
mais à frente.
Talvez toda a sabedoria em coexistir
resuma-se à ciência do cálculo exato
da distância entre os entes
para que não se dê da própria carne
a outros dentes, com fomes que
nem os donos deles compreendem.

Eliseo Martinez
16.09.2020

terça-feira, 15 de setembro de 2020

307.

Mais uma vez, o voto

Em meio ao tsunami da pandemia,
o país se prepara para novo embate,
agora, alinhando candidatos
da polis a seus postos de comando.
De todo o lado, surgem loquazes defensores
dos legítimos interesses do povo,
que logo depois das escolhas anunciadas,
cairão no esquecimento, de novo.
E o esforço coletivo dos homens,
mais uma vez, servirá ao apetite de poucos.
Antes de baixar aos nomes,
é o fenômeno do poder
que deveria ser melhor apurado,
virar objeto da atenção
dos mesmos de sempre enganados,
nos levando a inventar saídas
do amplo círculo dos erros praticados.
Basta olhar em volta
para ver dissolver-se ante os olhos
o peso das formulas teóricas, aí postas,
como chave que nos abrisse alguma porta.
Se a direita é sempre nefasta
às maiorias excluídas,
a esquerda parlamentar se fez fumaça,
esmerando-se em negar
suas lutas mais antigas.
Lideranças acovardadas
negam o que pregam
velhas falas decoradas.
O mercado de ilusões segue operado
por gangues de sanguessugas,
sempre prontas a desfrutar
os despojos da disputa,
zelosos da máquina infernal
que lhes garante os salários,
sem os resultados
para que foram criados.
Por baixo dos panos,
correm soltos os acordos
que melhor convêm a tais senhores,
escolados mestres enganadores.
Para o grego antigo, o nome "diceópolis",
repercutido pela comédia de Aristófanes,
passou a definir o bom político.
Não é preciso ser muito lido
para supor que o conceito, ali, nascente,
teve breve existência,
não sobrevivendo para além
do imaginário helênico.
Como pode restar dúvida
de que solução alguma virá
da dita "grande política"
e de que ela só faz patinar
as justas demandas de nossa gente
num parlamento corrompido,
um judiciário a soldo das elites
e as hostes obscuras da presidência?
Como escapar da lógica imposta
pelo velho conhecido "voto útil"?
Uma coisa é certa:
o voto serve cada vez menos
a maior parte de toda gente
e, cada vez mais, para legitimar
o estado de injustiça vigente.
As utopias imaginadas da modernidade,
que, ao menos, ampliavam possibilidades,
parecem não ter mais lugar
na distopia pós-moderna,
conformada com o que se passa.
Que se ache, então, outra passagem,
talvez menos segura,
mas, por certo, mais viável.

Eliseo Martinez
15.09.2020

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

306.

O nome dela

Envolta em véus de sombras
em noites de pouca lua
ou nas manhãs translúcidas,
radiante, crua
e, assim, inteiramente nua,
ela incensa buscas a toda gente,
faz-se outra, sempre única e diferente
para entregar-se sem pudores
aos apetites de cada crente.
De certo, dela apenas sabe-se
de quem descende.
Filha dos limites definidos pelo espaço
e do que flui incontido pelo tempo,
que sempre passa.
Aclamada, malfalada,
tão amada quanto odiada
pelo mais parco em misérias
ao mais ancho de farturas,
todos a cortejam,
todos a querem atada ao lado,
feito presa a custo apanhada.
Volúvel, trai por ganhos,
tédio ou sina vingativa,
tatuando nas entranhas
de ex-amantes cálidas feridas.
Uns fazem dela sua causa,
outros são por ela
levados ao cadafalso.
E, no entanto,
prenda de iludidos proprietário,
para quem acha-se sempre grávida
de realidades imaginadas,
todos juram que a possuem,
declarando-a como sua.
Da mesma natureza dos ventos,
que mais seria ela
senão o próprio movimento?
Seu nome é Desengano
ou, mesmo, Falsidade,
mas ficou mais conhecida
pela alcunha de Verdade.

Eliseo Martinez
10.09.2020