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Machado - Loucura e ironia
Em fins de setembro de 1908, morria no
Rio de Janeiro um dos mais destacados
escritores da língua portuguesa.
estampada em fotos, revelaria a
mente dotada de voltas à mais que o
normal dos mortais.
Aos 69 anos de idade, se ia Machado
de Assis, o iniciador do realismo no
Brasil e o primeiro a presidir a
Academia Brasileira de Letras,
que ajudou a fundar, em meio ao rico
legado literário deixado e a depressão,
ou melancolia, como à época era
chamada.
Com sua pena, Machado deu vida aos
que ficam para estada bem mais longa:
Brás Cubas, Quincas Borba (bicho e
homem), Rubião, Casmurro e tantos
mais; que, uma vez nos apresentados na
adolescência, deveriam ser revisitados
na maior idade para que cada um fosse
mais bem escutado, não apenas pelo
que fala ou grita, mas pelo que
ruidosamente sussurra sobre nós
mesmos.
O amplo inventário das imperfeições e
do contraditório que compõem a unidade
de seus personagens é a seta que
encontra o alvo móvel da diversidade
que coabita desde sempre a alma de
toda a gente.
Autor de método e avesso às
linearidades do estereótipo, Machado
de Assis discorre com sagacidade sobre
a complexa psique humana, não raro,
usando da fragmentação que encadeia
o texto em múltiplos capítulos,
por vezes, feitos de uma única frase,
para melhor expor a nuance em seus
desdobramentos, sempre de forma clara,
contundente e de sóbrio humor, com o
toque da irreverência.
A ironia, que é um jeito outro de falar do
mesmo, mas com a vocação de eriçar
sentidos, aguçando a atenção do leitor
atento, encontra na descrição de
Machado o que reveste a pele da
aparência e subjaz oculto nos labirintos
do inconsciente, revelando o que se
move dentro e fora, o grão da dúvida
encravado no solo insólito das certezas,
assim como o olhar duro do coletivo
sobre o indivíduo, em solidão
permanente, e a loucura com que este,
por vezes, lhe responde, tudo posto na
limpidez da língua, fluidez da escrita
e astúcia das imagens que transcendem
tempo e espaço, condensando o que
um outro, a nos observar de longe,
chamaria homem.
Eliseo Martinez
28.09.2020