Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 15 de setembro de 2020

307.

Mais uma vez, o voto

Em meio ao tsunami da pandemia,
o país se prepara para novo embate,
agora, alinhando candidatos
da polis a seus postos de comando.
De todo o lado, surgem loquazes defensores
dos legítimos interesses do povo,
que logo depois das escolhas anunciadas,
cairão no esquecimento, de novo.
E o esforço coletivo dos homens,
mais uma vez, servirá ao apetite de poucos.
Antes de baixar aos nomes,
é o fenômeno do poder
que deveria ser melhor apurado,
virar objeto da atenção
dos mesmos de sempre enganados,
nos levando a inventar saídas
do amplo círculo dos erros praticados.
Basta olhar em volta
para ver dissolver-se ante os olhos
o peso das formulas teóricas, aí postas,
como chave que nos abrisse alguma porta.
Se a direita é sempre nefasta
às maiorias excluídas,
a esquerda parlamentar se fez fumaça,
esmerando-se em negar
suas lutas mais antigas.
Lideranças acovardadas
negam o que pregam
velhas falas decoradas.
O mercado de ilusões segue operado
por gangues de sanguessugas,
sempre prontas a desfrutar
os despojos da disputa,
zelosos da máquina infernal
que lhes garante os salários,
sem os resultados
para que foram criados.
Por baixo dos panos,
correm soltos os acordos
que melhor convêm a tais senhores,
escolados mestres enganadores.
Para o grego antigo, o nome "diceópolis",
repercutido pela comédia de Aristófanes,
passou a definir o bom político.
Não é preciso ser muito lido
para supor que o conceito, ali, nascente,
teve breve existência,
não sobrevivendo para além
do imaginário helênico.
Como pode restar dúvida
de que solução alguma virá
da dita "grande política"
e de que ela só faz patinar
as justas demandas de nossa gente
num parlamento corrompido,
um judiciário a soldo das elites
e as hostes obscuras da presidência?
Como escapar da lógica imposta
pelo velho conhecido "voto útil"?
Uma coisa é certa:
o voto serve cada vez menos
a maior parte de toda gente
e, cada vez mais, para legitimar
o estado de injustiça vigente.
As utopias imaginadas da modernidade,
que, ao menos, ampliavam possibilidades,
parecem não ter mais lugar
na distopia pós-moderna,
conformada com o que se passa.
Que se ache, então, outra passagem,
talvez menos segura,
mas, por certo, mais viável.

Eliseo Martinez
15.09.2020

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