310.
O nome
Podemos nos ir deste mundo
sem rastro que leve ao que fomos,
basta que se perca o nome
que, ao nascer, sem que se peça,
herdamos.
O nome é a resposta que damos
às urgências do tempo,
algo do pouco que nos preserva
para além do corpo, em breve
a apodrecer numa orgia de vermes.
O nome dura mais do que a gente,
levando consigo nossos vestígios,
antes de sumirmos para sempre.
Havendo prole, quem sabe?,
seremos lembrados,
passando o nome que recebemos
aos recém chegados,
tornando menos perfeito
o irredutível trabalho da morte,
obrigada a se abancar na estação
até que passe, de cada comboio,
o último vagão.
Acaso nos falte a estima,
ovo mal chocado da família,
o nome pode não ser mais
que as posses ou dívidas
que ficam com as partidas.
Com sorte, o inventário aberto
e uma magra partilha,
sempre em hora certa.
Mas, se não faltar boa vontade,
o nome é bem mais, na verdade.
É o fio que nos liga às origens
e uma pista indefectível
do fruto que nos tornamos,
seja lá quem formos,
vingando dessas raízes,
para o salto do alto dos ramos.
Sem o nome, somos apenas "aquele".
Quem? "Aquele, que fez isto ou aquilo,
ou mesmo, o que nada fez de bem feito.
Ladrão, corrupto ou assassino,
para se ficar nas tendências de sempre.
Que não se omita o de "filho da puta",
para os amantes da língua menos culta.
Ah! Também, pode ter sido o professor,
ou o que não foi útil aos rebentos,
tão contaminados de vontades,
nestes tempos virulentos.
Pode ser o nada do vácuo
perdido no espaço,
com validade vencida de prazo.
Pode ser apenas
o que todos seremos ainda,
o átomo que está em tudo
e já não se sabe se finda,
no tédio infinito de tanto giro.
Pode, até, ser um desses,
que, pelo acaso, veio dar
neste prato de comida,
me entrando pela boca
na fome do meio-dia,
para se despedir pelo cu,
num vaso sem flores,
no outro dia.
Eliseo Martinez
23.09.2020
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