Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 31 de outubro de 2020

 317.

Black lives matter



Tem quem tenha se apropriado
do nome "americano",
próprio a todo o negro,
latino, índio ou branco
nascido de três continentes,
ligados por um fio de terra
e elos feitos de gente.
De fato, não é pouco o que veio
da metade sul das terras ao norte.
Mas, entre Klan, racismo,
trapaça, crentes e dinheiro,
fico com os sons surgidos
no interior de suas fronteiras,
gestados com gens estrangeiros.
Uma polifonia feita de
jazz, blues e folk,
happy, rock e gospel...,
no intervalo reduzido
de um par de séculos,
de lá, foi-se mundo a fora.
De que raízes vem tantos ramos
se não da cultura Mac Donald's-
Microsoft-Hollywood-Coca-cola?
Quem sabe da poesia dos hinos
nazi-fascistas da supremacia branca?
ou dos fundamentalistas de Atlanta?
Não, acho que não!
Vêm dos vindos contra a vontade,
os filhos descalços da África,
arrancados de seus lares.
Aqueles mesmos que,
tanto acima como abaixo
de uma linha imaginária,
foram reduzidos a escravos
e, ainda, lutam por igualdade,
gravando de vergonhas
os que seguem trapaceando.

Eliseo Martinez
31.10.2020

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

316.


Paradoxo

Assim como há o que nasça
do lodo do pântano,
tem o que prospere
à custa de desenganos.
Pelas trilhas
da aparente incongruência,
seguem as crias da mente,
que se criam melhor
de barriga vazia
que de barriga cheia
e nada parece produzir
de instigante um coração
sem que o desassossego
lhe faça bater em aflição.
Habita, aí, nesta toca,
um pequeno paradoxo
à procura do nexo lógico
de alguma resposta.
Não é do fruto do trabalho
das mãos de que falo.
Falo do gesto
que põe cor e curvas no que
andava branco e preto e reto,
do que recria-se em harmonia,
ensaia voo e rodopia
pelos espaços abertos,
das ideias derramadas
em folhas em branco,
do ato encenado nas ruas
e palcos mais amplos...
Parece impossível haver arte,
ou mesmo vida,
sem a ausência de algo,
um vazio a ser preenchido,
um vão que nos vai dentro,
oculto e mal percebido,
capaz de por em movimento,
quer consciência, quer instinto
do comum dos indivíduos.
Quem não quer a brisa suave
de dias ensolarados
para descansar à sombra das árvores,
beirando o remanso de um lago?
Mas é o vento que gira o moinho,
espalha as sementes
e faz com que as aves
teçam fortes seus ninhos.
É o "não" afetuoso do pai
que dá segurança
aos descaminhos do filho.
Que mais é a paixão
que uma carência enfurecida
à busca do objeto intangível?
A falta é a pausa entre as notas.
Sem tempos de silêncio
não haveria melodia
a nos encher a alma
e os olhos d'água de alegria.
Insuficientes, que somos,
andamos por nossas lacunas,
calculando distâncias seguras
dos muros úmidos
e escuros da loucura.

Eliseo Martinez
28.10.2020

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

 315.

Dias de chuva


Em dias chuvosos, como este,
no aconchego da casa,
esquecidos de nós mesmos,
aninhados entre livros e jornais
espalhados sobre os tapetes,
ocupamos um parêntese
do tempo presente
e a trégua, por fim conquistada,
nos abraça em sua paz inventada.
Se grandes temas são largos
e necessitam de espaço,
é na trinca do instante
que os detalhes nos revelam,
despertando sentidos adormecidos
pelo atropelo da vida.

Eliseo Martinez
21.10.2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

314.

A captura do agora


Os tempos de que é feito o tempo
são percebidos cada qual a seu jeito.
No pretérito, assentaram-se os alicerces,
onde revoa entre o pó da memória
o que, talvez, seja melhor que se esqueça.
Ao futuro, destinam-se sonhos e projetos,
tantas vezes, mais quiméricos que certos.
No entanto, mais do que nos damos conta,
a intrincada trama da vida
parte das costuras do agora
para, ponto a ponto, ir sendo tecida
pela existência a fora.
Reféns do passado
ou no aguardo do inusitado,
o efêmero espaço do meio,
que é onde sempre estamos,
é feito canoa sem remo ou vela de pano,
ao jogo encapelado do oceano.
Quer as amarras nos atem com nós da memória
ou nos aprisionem na esperança da boa hora,
uma coisa parece ser certa:
pouco do presente nos resta.
O pulso do instante imediato
é da natureza do relâmpago, do trovão e do raio,
que inutilmente se tentou capturar,
personificados em divindades arcaicas.
Que mais é o momento que esta fenda do tempo
onde a eternidade se estende, lépida e lenta,
como chama de vela à fúria de vento?
O sol de inverno na pele;
um gesto inesperado de afeto;
o momentâneo encontro dos corpos;
pequenos vícios, só nossos;
o espanto que move criança e filósofo;
o tranco do punhal entre os ossos...
Há, também, o que não se reviva ao ser recordado
ou requente no fogo brando das reminiscências,
tampouco se antecipe ao ser imaginado.
É no presente que habitam
as sensações que se sente.
Os sentidos são tentáculos invisíveis
que nos ligam ao universo sensível,
coletando aromas e cores,
sons, texturas e sabores,
a nos dar a ilusão que, ao menos aqui
e apenas agora, ainda somos senhores.

Eliseo Martinez
20.10.2020

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

313.

Manifesto dos Tolos

Em tempos tão divergentes,
que incensam loas aos diferentes,
que não se negue aos tolos
seus justos direitos.
O tolo está entre nós desde sempre.
Não se sabe, ao certo,
se não foi, de fato, o primeiro,
sem pesar consequências,
a levar adiante o andor
do bando inteiro.
Basta deitar olho na história
para ver que não lhe faltou
pompas e glórias,
bem como guilhotina e degola.
Tem tolo prá todo o gosto,
do mais jovem ao mais idoso,
inocente, nem aí ou criminoso.
O tolo não é o burro,
ele está mais para o ingênuo,
se bem que alguns até passem
por excêntricos ou, mesmo, gênios.
Agora, tolo chato, com certeza,
é o tolo crente.
Ave Maria! Sai de ré, minha gente!
Haja paciência para o tolo penitente.
Se perguntarem por sua obra,
quanta tolice fez e fará o tolo,
mundo a fora.
Ser tolo é pop, nunca saiu de moda.
Sucesso garantido
entre as moças prendadas,
que amam tolos, em especial,
na hora da conta ser paga.
Hoje, tem até fake de tolo.
É aqui que entra o esperto
que, com o voto dele,
quer ser eleito de novo.
O tolo, quase sempre, é boa gente,
fazendo do engano,
seu toque mais humano.
Mas, o que se exige do tolo
chega a ser indecente.
Quando for só mais um
entre o resto das gentes,
sem ser alvo dos maledicentes
com suas línguas-de-serpente,
vai poder deixar de se fazer
de inteligente
para falar de um jeito simples
das merdas que sente.
Só então, seremos tolos contentes!

Eliseo Martinez
15.10.2020

terça-feira, 6 de outubro de 2020

 312.

Olho agudo


Olha-se em volta.
Por força do hábito,
o olho ajusta o foco
o mais longe que pode
e, levado pela corrente,
nem sempre as margens
se revelam atraentes.
É como que um pouco
dos males do mundo
se prendam feito fungos
ao fundo de tudo.

Eliseo Martinez
06.10.2020