314.
A captura do agora
Os tempos de que é feito o tempo
são percebidos cada qual a seu jeito.
No pretérito, assentaram-se os alicerces,
onde revoa entre o pó da memória
o que, talvez, seja melhor que se esqueça.
Ao futuro, destinam-se sonhos e projetos,
tantas vezes, mais quiméricos que certos.
No entanto, mais do que nos damos conta,
a intrincada trama da vida
parte das costuras do agora
para, ponto a ponto, ir sendo tecida
pela existência a fora.
Reféns do passado
ou no aguardo do inusitado,
o efêmero espaço do meio,
que é onde sempre estamos,
é feito canoa sem remo ou vela de pano,
ao jogo encapelado do oceano.
Quer as amarras nos atem com nós da memória
ou nos aprisionem na esperança da boa hora,
uma coisa parece ser certa:
pouco do presente nos resta.
O pulso do instante imediato
é da natureza do relâmpago, do trovão e do raio,
que inutilmente se tentou capturar,
personificados em divindades arcaicas.
Que mais é o momento que esta fenda do tempo
onde a eternidade se estende, lépida e lenta,
como chama de vela à fúria de vento?
O sol de inverno na pele;
um gesto inesperado de afeto;
o momentâneo encontro dos corpos;
pequenos vícios, só nossos;
o espanto que move criança e filósofo;
o tranco do punhal entre os ossos...
Há, também, o que não se reviva ao ser recordado
ou requente no fogo brando das reminiscências,
tampouco se antecipe ao ser imaginado.
É no presente que habitam
as sensações que se sente.
Os sentidos são tentáculos invisíveis
que nos ligam ao universo sensível,
coletando aromas e cores,
sons, texturas e sabores,
a nos dar a ilusão que, ao menos aqui
e apenas agora, ainda somos senhores.
Eliseo Martinez
20.10.2020
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