362.
O demiurgo, o anacoreta e o taumaturgo
Em um fim de tarde escarlate,
um anacoreta que cruzava dunas do deserto,
absorto em pensamentos por certo incertos,
repentinamente, deparou-se
com um taciturno taumaturgo,
recém fugido da cidade
por temerem seus desconcertantes milagres,
concedidos a um punhado
e exigido por milhares.
O encontro inusitado, na vastidão vazia
dessas terras de tão pouca serventia,
trilhada por raros peregrinos,
já seria coisa das mais improváveis.
Mas, eis que mal o condenado
e o que a si mesmo condenou à solidão
houvessem se cumprimentado
e do mesmo cantil bebido da mesma água,
ouvem passos na areia crestada.
Aproximando-se de ambos,
coberto por seu alvo manto,
vinha o demiurgo, saído do nada.
Como pode ser que onde passa-se meses
e, mesmo anos, sem que se depare
com alma penada ou de vivente,
naquele exato lote do fim do mundo,
habitado por escorpiões e serpentes,
reúna-se a pequena multidão, ali presente:
um monge ermitão, um visionário milagreiro
e o artesão divino, antevisto
por Platão e reverenciado pelos discípulos?
Depois de cruzarem-se os homens,
se cruzaram os pensamentos,
sob um céu estrelado,
que só aos desertos inóspitos é reservado.
O anacoreta falou
do que se alimenta um ermitão
e do que vai em seu coração,
além dos raros andarilhos
que por ele passaram,
nestes tempos solitários.
O taumaturgo discorreu sobre as visões
que lhe atormentam a alma
e sobre os milagres de que foi culpado.
O demiurgo refletiu sobre a ordem
e a desordem do universo,
da natureza da matéria,
do espaço e do tempo em movimento.
Entre homens tão incomuns,
em poucas palavras,
muito pode ser trocado
e, logo, o valor da bagagem
dos viandantes é constatado.
Por fim, já acomodados
para a fria noite que lhes aguardava,
entoaram, felizes,
seus cânticos mais sagrados.
Pela manhã, depois de terem repousado,
cada qual partiu para o seu lado.
Um levando o odre às costas,
outro a recitar mantras,
envolto em panos brancos
e o terceiro, de pés ligeiros,
apoiado em seu cajado.
Tanto mais poderiam ter compartilhado,
mas com alegria e, também, as reservas
dos que se habituaram aos olhos torvos,
se dispensaram pelo já tórrido deserto.
Agradaram-se, sobretudo,
do som das próprias falas.
Tão sábios, cada um,
das coisas de que falaram
e tão impermeáveis às palavras
saídas de outros lábios.
A solidão enraizada
em seus corações petrificados
foi mais forte do que toda a sabedoria,
ali, manifestada.
Eliseo Martinez
28.11.2021