Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 28 de novembro de 2021

362.

O demiurgo, o anacoreta e o taumaturgo

Em um fim de tarde escarlate,
quando o sol já bem tendia ao ocaso,
um anacoreta que cruzava dunas do deserto,
absorto em pensamentos por certo incertos,
repentinamente, deparou-se
com um taciturno taumaturgo,
recém fugido da cidade
por temerem seus desconcertantes milagres,
concedidos a um punhado
e exigido por milhares.
O encontro inusitado, na vastidão vazia
dessas terras de tão pouca serventia,
trilhada por raros peregrinos,
já seria coisa das mais improváveis.
Mas, eis que mal o condenado
e o que a si mesmo condenou à solidão
houvessem se cumprimentado
e do mesmo cantil bebido da mesma água,
ouvem passos na areia crestada.
Aproximando-se de ambos,
coberto por seu alvo manto,
vinha  o demiurgo, saído do nada.
Como pode ser que onde passa-se meses
e, mesmo anos, sem que se depare 
com alma penada ou de vivente,
naquele exato lote do fim do mundo,
habitado por escorpiões e serpentes,
reúna-se a pequena multidão, ali presente:
um monge ermitão, um visionário milagreiro
e o artesão divino, antevisto
por Platão e reverenciado pelos discípulos?
Depois de cruzarem-se os homens,
se cruzaram os pensamentos,
sob um céu estrelado,
que só aos desertos inóspitos é reservado.
O anacoreta falou
do que se alimenta um ermitão
e do que vai em seu coração,
além dos raros andarilhos
que por ele passaram,
nestes tempos solitários.
O taumaturgo discorreu sobre as visões
que lhe atormentam a alma
e sobre os milagres de que foi culpado.
O demiurgo refletiu sobre a ordem
e a desordem do universo,
da natureza da matéria,
do espaço e do tempo em movimento.
Entre homens tão incomuns,
em poucas palavras,
muito pode ser trocado
e, logo, o valor da bagagem 
dos viandantes é constatado.
Por fim, já acomodados
para a fria noite que lhes aguardava,
entoaram, felizes,
seus cânticos mais sagrados.
Pela manhã, depois de terem repousado,
cada qual partiu para o seu lado.
Um levando o odre às costas,
outro a recitar mantras,
envolto em panos brancos
e o terceiro, de pés ligeiros,
apoiado em seu cajado.
Tanto mais poderiam ter compartilhado,
mas com alegria e, também, as reservas
dos que se habituaram aos olhos torvos,
se dispensaram pelo já tórrido deserto.
Agradaram-se, sobretudo, 
do som das próprias falas.
Tão sábios, cada um,
das coisas de que falaram
e tão impermeáveis às palavras
saídas de outros lábios.
A solidão enraizada
em seus corações petrificados
foi mais forte do que toda a sabedoria,
ali, manifestada.

Eliseo Martinez
28.11.2021

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

361.

Os caminhos e o atalho

Por que tantos desistem?
Pouco não é sempre
melhor que nada?
E aquele que nada tem
não tem mais do que
o que já não é mais?
O quadro por nós
- de nós - pintado
e o lugar mais abaixo
ou mais ao alto
a ele reservado,
provavelmente nos
antecipe o salto.
Talvez, mais do que
os tombos e desencontros
ou as lâminas com que ferimos
e nos ferem na garganta
nos pesem os dias
postos de lado,
sem sentido ou alegrias,
como que um sobre os outros,
empilhados.
É o fardo do cotidiano,
que nos faz tão pequenos
frente ao que já vislumbramos
de nós mesmos.
Trata-se da perversa distância
entre o que somos
e o que nos habituamos
a pensar que somos.
Por vezes, temos de cortar os fios
que nos prendem ao aconchego
do resguardo da rede
ao invés de levitar no retrato
empoeirado preso à parede.
Mas, por hora, que não se
desapontem os mais afoitos,
seduzidos por balas, cordas,
drágeas ou foices.
Enquanto houver caminhos,
aos descaminhos
não se fornecem tábuas
que lhe sirvam de pontes.

Eliseo Martinez
24.11.2021

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

360.

Realidades

Sem ânimo que se derrame,
retesam-se os músculos
sob o garrote dos nervos de arame.
A respiração aflita, trava, hesita,
pendurando o corpo à vida.
Na cabeça, bigornas repicam,
feito sinos.
Por trás dos olhos, martelos de aço
malham cravos saídos da forja,
projetando os globos injetados
para fora das órbitas.
No olhar, mil temores difusos,
sem o mapa das covas
onde foram cravados no fundo,
talhando vincos no rosto duro
dos que creem ter visto de tudo.
A vontade, que já teve viço,
é modesta, por conta
dos enguiços da lida adversa;
a perna fraqueja; o passo, incerto
e o suor lhe brota da testa.
Tomado de melancolias,
a náusea dá a cor do que resta.
O entorno se fecha a céu aberto,
confinando num quarto escuro
seu inquilino único,
acossado pelo desconforto contínuo
de punhais pontiagudos.
Tantos que somos e as realidades
que borbulham na solidão das mentes
se revelam tão divergentes,
invisíveis aos que passam indiferentes.
Alguém com sorriso de cera
acena do outro lado do passeio
e, mecanicamente, de pronto,
o homem acena do sítio oposto.
Em rasos pespontos,
fio acima, fio abaixo,
costura-se com luz e sombra
o todo e o nada que somos,
tecendo nosso normal cotidiano. 
Debaixo de um sol escaldante,
atravessa a avenida,
teso e já desapercebido
como, de resto, tudo.
Se vai a comprar papaias
no mercadinho do fim da rua,
mal percebendo a caricata figura,
por meio salário, a soldo de outros.
O Papai Noel sem idade,
com sua triste felicidade,
metido em rubros veludos,
ensaia nova versão da realidade,
por trás da barba de algodão sujo,
manchada de nódoas do pouco uso.


Eliseo Martinez
18.11.2021

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

359.

Tudo é movimento


Sob o olhar severo
dos corpos celestes
situados acima
e a cegueira
dos corpos terrestres
sitiados abaixo,
armou-se a armadilha
à espera do dia
que, por descuido, vilania
ou cósmica engenharia,
o levante se insurja
e surja do ocidente
para deitar luz no oriente,
quebrando, uma vez mais,
a ordem do universo existente.
E, no desalinho do que vai
para além do horizonte,
pereça o que parecia
ser para sempre.

Eliseo Martinez
10.11.2021

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

358.

O time da curva


A um só tempo,
torna-se o homem
senhor e escravo
da luta encarniçada
no interior das legiões
que o habitam,
de tantos que se torna
no curso de uma vida,
de tantos que são
os cacos em conflito,
espinhos que nele ficam.
E o que era caminho
se multiplica num emaranhado
de atalhos mal traçados.
Tal é a condição do que é,
frente a promessa do que foi.
Precisamente, em que momento
torna-se a inocência, malícia;
faz-se da vítima, o homicida?
Em que instante
se dobra a esquina?
Me explica!
Ou basta crer
que para se encontrar
temos de nos perder?
Que dizer do olhar atento,
da vontade enraizada no peito
e das escolhas que temos,
mesmo as que levam à nada?
Vai, me explica!
Mas explica do jeito
que um mateiro decifre.

Eliseo Martinez
09.11.2021

terça-feira, 9 de novembro de 2021

357.

Deixar passar

Com o veneno do silêncio
na boca que te colhe os beijos,
faço que não vejo
tu dar asas a teu desejo.
Para que os dias tomem rumo
e haja amanhã que nos cure,
há que soltar as amarras
que mantém os destroços
presos à praia,
deixando que repouse
em águas mais fundas
o que restou de ilusões,
mãos dadas, loucuras.

Eliseo Martinez
09.11.2021

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

356.



Por vezes,
sorrisos e olhares
que, ao partir,
deixam saudades,
ficam em nós
para sempre,
como larvas que vivem
nos buracos da alma
ou espinhos
cravados na carne,
iluminados
à luz trêmula
de uma vela,
como convém a olhos
que se recusam as trevas.

Eliseo Martinez
08.11.2021

terça-feira, 2 de novembro de 2021

355.

O hálito de Nietzsche

Nascemos e, logo, o que move
as hordas mundanas
faz com que nos percamos 
por caminhos já traçados
pelos pares humanos,
até que não sejamos
mais que clones de nós,
estranhos a nós mesmos.
Os sentidos que nos guiam
nos são servidos
em drágeas, dia a dia,
por vezes amenos,
por vezes amargos,
com requintes ou barbárie,
pela ação dos mercados
ou pelo frio entusiasmo
dos rebanhos domesticados,
todos e cada um deles
engrenagens do mesmo aparato,
o espaço-tempo da História,
palco das nossas derrotas
e das nossas vitórias.
O que pode haver
de mais vital e urgente
do que por em causa
as amarras que nos prendem
e sair a procurar-se
por onde quer que as pistas
se apresentem,
por onde quer que nos leve
a transvalorizar o presente?
Que mais dá sentido
à existência que paira mansa
sobre os dias em fúria
do que se apropriar
dos fundamentos
de nossas certezas e dúvidas
e, assim, nos sirvam
de legítimos guias
para pisarmos o próprio chão,
bem mais firme
que a areia movediça
que nos engolia?
Já que não existem sentidos
previamente definidos,
pobre do que não se lança
à tarefa de inventa-los
para a própria vida,
do contrário,
terá de engolir aos nacos,
sentidos por outros urdidos.
Içar a vontade como vela de proa
e sair à busca das verdades
que dormem em nós,
colhidas nas redes finas da crítica
de tudo o que se agita
no mar revolto de todas as vidas.
Quem mais propriamente
seria chamado de louco
pelos idos de 1900,
senão Nietzsche,
entre todos os outros?

Eliseo Martinez
02.11.2021